Wednesday, February 24, 2010

Crônica sobre a cegueira

Sabe-se lá o que Saramago quis dizer com a sua cegueira branca. A minha cegueira é invisível, isso eu sei, como um pano transparente que balança suavemente entre mim e o mundo. Olhei ontem pela janela e não vi aquela casa verde que está plantada, bem ali, na minha frente. Nem a pintura nova dos muros do colégio, nem nunca tinha visto aquela goiabeira no pátio do vizinho, há uns vinte ou trinta metros daqui. Tenho a sensação de que essas coisas se materializaram durante a noite, enquanto eu dormia e sonhava. Via todas as outras ao redor dessas que eu citei agora, assim como continuo vendo-as hoje. Mas há algumas que se escondem do meu olho. Hábeis camaleões, disfarçam-se na paisagem, como saibam não seja tempo ainda de se mostrarem a mim. Agora mesmo faço um teste: fecho os olhos, apago todas as imagens antes gravadas na retina dos meus olhos sonolentos, espero um, dois, cinco segundos, e abro-os temerosa. Olho a cidade na moldura branca da janela e examino tudo minuciosamente, a partir do primeiro plano, do outro lado da rua e... Eu sabia. No poste de luz – trabalho duro de um dia ou dois – ergue-se, à meia-parede, a casa de um joão-de-barro. Como pude não perceber, como ignorei o trabalho árduo de, pelo menos, duas jornadas? Nesse período, um bico que cabe muitas vezes na minha mão transportou o material até o local da obra, distribuiu e moldou as porções de fino barro umas sobre as outras – força de operário e sabedoria de mestre. A ânsia de perpetuar-se erige abrigo, solidifica lar e cumpre promessa de vida, tão perto de mim, sob minha imperdoável indiferença. Criatura escondida sob tantos véus – eu não via, agora vejo.

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