Tuesday, May 17, 2011
Thursday, March 11, 2010
Graça
Mês de abril. O ônibus sacode na estrada esburacada. A manhã de outono ainda conserva as temperaturas escaldantes do verão, e a poeira que levanta da estrada entra pelas janelas abertas, se junta ao cheiro das flores dentro do balde de plástico no banco ao lado, e enche o ar de um cheiro sufocante. Graça olha a paisagem de uma Vila Nova diferente. Quatro anos haviam passado, quase não lembrava mais das noites mal dormidas, das paredes escuras, dos dias desesperados, a vida toda no lixo. Tudo o que via tinha agora um sentido novo, não passava um minuto sequer sem que deixasse de perceber a nova realidade, construída por ela palmo a palmo. Izinha e Henrique tagarelam nos bancos da frente, ambos disputam pacificamente a janela estreita e apontam para a paisagem passageira. Graça aprecia a conversinha de ambos e sente uma alegria transbordante queimar o peito. A vida vem em ondas, ecoava o verso de uma música que ela ouvia no rádio quando adolescente, e agora tinha certeza de que era assim mesmo.
Até a volta, dona Graça. As crianças já a esperam do outro lado da estrada, ela confere o horário do ônibus que os levará de volta para casa, até a volta seu Hermes, o rastro de poeira continua a viagem. Ninguém mais por ali, bem como Graça gostaria que fosse. As cruzes se elevam por cima do muro caiado, ela ouve uma cigarra estridente, o sol inundando tudo.
Qual é a tumba do vô, vó? É do meu pai..., retruca Isinha, devagar e num tom mais baixo que o de costume, as mãozinhas torcendo a barra do vestido, lembrança nenhuma do pai na cabecinha. Hein, vó? Nenhuma resposta. Graça anda passos lentos lembrando o dia em que soube da morte do marido, os tapas que a sobrinha teve que dar no seu rosto. Nem uma semana fazia que Joana tinha falecido, a dor ainda fisgando, e o homem que amava tanto também estava morto, nenhum cuidado, nenhum adeus, nenhuma palavra. Chorou e lamentou madrugadas, incomodava, mandavam que calasse a boca, queriam sossego. Pois sim. Sossego num lugar daqueles. Pesava a vida naquele lugar, ela perdia parte da alma. Hoje, quatro anos depois, não tem mais mágoa de ninguém, nem lágrimas pra derramar, uma saudade aplacada pela vida boa que tem.
É essa daqui, diz Graça com os olhos parados na pedra sem retrato. Primeiro a gente tira as flores velhas, assim, ó. Vai Rico, joga fora do outro lado da cerca. Vamos colocar as rosas assim, depois a gente despeja a água. Izinha, pega a vela na bolsa da mãe e os fósforos. Isso. Tem que botar a mão assim pra acender, senão o vento apaga. Tá, agora com as mãozinhas assim, assim, juntinhos. Pai nosso que estais no céu...o pão nosso de cada dia...não nos deixeis cair em tentação...amém. Agora, assim, o sinal da cruz, isso. Pronto, acabou, podem brincar, mas sem subir nos túmulos.
As crianças se afastam, nem de leve o cenário do cemitério lhes remete à morte. Há divertimento em observar cruzes enferrujadas, adornos religiosos, as flores de plástico. Graça observa de longe a filha mais nova e o neto, parte da família que lhe deu forças para sair do inferno. Jamais pensou que tivesse tanta força o amor. Amava o marido e os filhos todos, os cinco que eram dela e os que adotara por força dos desvios da vida. Para ela, sim, os muros e as grades do cemitério eram símbolos de ausência de vida. Ela lembrava os dias e as noites todas em que sofreu os horrores daquele outro lugar, sentindo frio, medo, arrependimento, somente chão, teto, paredes e muitas grades. A galeria toda era um viveiro de mulheres endurecidas, sedentas, algumas secas de sentimentos, outras, fervilhando rancores. Tô no ódio – escreveu Graça desatinada certa vez, recordando da cilada em que ela própria havia se metido e que a colocara lá. Dera ouvidos às pessoas erradas, perdeu o rumo. Teria entrado em depressão, não a tivessem designado para ajudar a cuidar das crianças na creche recém reformada. Ali, cuidando do pequeno Noel, sentiu que a vida ainda podia ser boa, havia uma família, filhos em casa esperando por ela. Olhando nos olhos de uma criança cremos mais na vida, damos mais valor às coisas simples, ficamos mais humildes, acreditamos mais no futuro, escreveu Graça no seu diário, depois de uma tarde de trabalho com os pequenos. O futuro. Graça se sente vivendo o que via no espelho daqueles olhinhos.
Tou com sede, vó, chamou-a a vida de volta. Ofegantes, bochechas rosadas, bebem a água gelada da garrafa térmica. Na viagem de volta, as crianças sonolentas sentadas junto dela, Izinha aninhada no colo, cabelinho cheirando a suor, Rico escorado nela, ensaiando sono. O pai era bom, mãe? Era, sim, bom que nem o Dudu, agora dorme que ainda falta muito pra chegar. Era bom, tão bom que não pôde me ver no fundo do poço e morreu antes de eu sair de lá. Por muito tempo Graça curtiu uma grande decepção, Cesinho era o grande amor da sua vida, mas havia feito coisas erradas, sobre as quais ela quase não falava com ninguém. Culpava-o também por ter ido parar naquele lugar. Mas esse sentimento foi aplacando depois que ela ganhou a liberdade e, depois de alguns meses, as boas lembranças abafaram completamente o sentimento ruim. Todo ano, em abril, no dia da morte do marido, Graça ia ao cemitério em memória dele, levava flores, acendia uma vela, rezava, prezava o repetido ritual. Era bom voltar pra casa depois.
O pequeno chalé escondido na beira da estrada é o lugar onde foi morar com os filhos, menos o mais velho. Dudu trabalha na Carris, juntou-se, não quis casamento, foi morar com uma moça, longe, mas é dele que ela e as meninas recebem mimos nos fins de semana. Pacotes de biscoito, a galinha do almoço de domingo, algum brinquedinho pros pequenos, abraço apertado na cozinha depois que todos já saíram da mesa. Os outros, todos debaixo da sua saia depois que ela voltou, assim ela quis. Dois meses em liberdade, Marquinho, o segundo filho, saiu da FASE, e ela o prendeu dentro de casa, deu conselho e comida, longe da gentalha com quem andava antes. Pede pra Deus, dizia Graça, que Ele vai te ajudar. Um dia descobriu o guri lendo uns escritos da igreja evangélica. Ela deixou. Foi a culto, quis ser pastor, não tinha jeito, engasgava-se com as palavras. Coisa melhor aconteceu: nunca mais chegou perto de uma boca de fumo, voltou a estudar, arrumou emprego, Graça sentia os dias aliviados.
Lembrava-se de quando, menos de mês livre, ela recebera o voto de confiança do vizinho, dono de uma chácara de pêssegos. Era tempo de colheita, precisavam de mais gente pra dar conta da safra, trabalho pesado desde os primeiros sinais de sol. O perfume das frutas compensava qualquer cansaço, e ela ainda podia levar para casa todos os dias quilo ou dois, as crianças se fartavam. Do que sobrava, Graça fazia fogo a lenha atrás do chalé, preparava doce pra passar no pão. Um dia, levou um vidrinho pra dona do mercadinho provar, a mulher aprovou, e graça recebeu no dia seguinte uma encomenda. Variou receita, aumentou produção, nunca mais parou. Era boa como estar em banheira cheia de água morna a sensação de liberdade, poder trabalhar, filhos na escola, alimentados. Ao sair desse lugar, espero resgatar o amor, a confiança e acima de tudo o respeito de todos, quero reconstruir minha vida, trabalhar, estudar, ser feliz e fazer minha família feliz para que um dia sintam orgulho de mim ao invés de vergonha, desejou Graça no seu diário, nos tempos de grades, fio de esperança. Lá fazia os novelos, tecia aqui a realidade.
Meio dia. Graça pisa no degrau da pequena varanda, Izinha e Rico entram na sala em correria. Uma onda de cheiro bom vem da cozinha, retalhos de riso, tons mais altos da conversa das outras meninas chegam de dentro da casa, o colorido das roupas secando ao sol. Num dia como hoje, Graça, as mãos algemadas para trás, desceu aos empurrões da gaiola, olhou para cima, sol queimando, e viu as janelas do Madre cheias de roupas íntimas penduradas, mãos que acenavam, cabeças ainda desconhecidas, promessa de pesadelo. Um peso imenso caiu sobre ela. Por quê? Se pudesse voltar no tempo... Não, a vida é pra frente, se convenceu meses depois. No dia em que saiu de lá, veio um sentimento estranho, tinha deixado para trás desafetos, mas também criara laços somente possíveis quando se está em condição reles, sem nada, nenhum interesse. Mulheres e crianças confinadas, num fazer por si, ilhadas no tempo e espaço, a indiferença passeando solene do lado de fora. A despeito dos comentários furtivos e dos olhares desviados, a alegria foi chegando devagar, depois de dias em casa, trazida pelo burburinho da criançada. Era preciso recomeçar.
Uma tonteira se abateu sobre Graça de repente, o estômago embrulhou. Seria a fome? Deixou as pernas afrouxarem, sentou no degrau, tirou os chinelos e baixou a cabeça. A terra acariciava os pés descalços. Olhos no chão, Graça admirava as formigas em carreira no meio do capim, indo e voltando, carregando comida, ora pareciam se chocar, ora detinham-se como que conversando, umas com cargas maiores que o próprio corpo, outras vagavam perdidas. Somos como as formigas, entendeu subitamente. Da porta, passos. Vem comer, morena, tá no mundo da lua? Um dia ainda acerto as contas com o Cesinho-do-cemitério que te deixa assim, sussurrou a voz com seu jeito sorrateiro, beijo na nuca, mãos acesas em afago sobre sua barriga. Uma vontade de chorar explode dentro dela, mas Graça ri da conversa mole do seu homem e deixa a vida rolar.
Até a volta, dona Graça. As crianças já a esperam do outro lado da estrada, ela confere o horário do ônibus que os levará de volta para casa, até a volta seu Hermes, o rastro de poeira continua a viagem. Ninguém mais por ali, bem como Graça gostaria que fosse. As cruzes se elevam por cima do muro caiado, ela ouve uma cigarra estridente, o sol inundando tudo.
Qual é a tumba do vô, vó? É do meu pai..., retruca Isinha, devagar e num tom mais baixo que o de costume, as mãozinhas torcendo a barra do vestido, lembrança nenhuma do pai na cabecinha. Hein, vó? Nenhuma resposta. Graça anda passos lentos lembrando o dia em que soube da morte do marido, os tapas que a sobrinha teve que dar no seu rosto. Nem uma semana fazia que Joana tinha falecido, a dor ainda fisgando, e o homem que amava tanto também estava morto, nenhum cuidado, nenhum adeus, nenhuma palavra. Chorou e lamentou madrugadas, incomodava, mandavam que calasse a boca, queriam sossego. Pois sim. Sossego num lugar daqueles. Pesava a vida naquele lugar, ela perdia parte da alma. Hoje, quatro anos depois, não tem mais mágoa de ninguém, nem lágrimas pra derramar, uma saudade aplacada pela vida boa que tem.
É essa daqui, diz Graça com os olhos parados na pedra sem retrato. Primeiro a gente tira as flores velhas, assim, ó. Vai Rico, joga fora do outro lado da cerca. Vamos colocar as rosas assim, depois a gente despeja a água. Izinha, pega a vela na bolsa da mãe e os fósforos. Isso. Tem que botar a mão assim pra acender, senão o vento apaga. Tá, agora com as mãozinhas assim, assim, juntinhos. Pai nosso que estais no céu...o pão nosso de cada dia...não nos deixeis cair em tentação...amém. Agora, assim, o sinal da cruz, isso. Pronto, acabou, podem brincar, mas sem subir nos túmulos.
As crianças se afastam, nem de leve o cenário do cemitério lhes remete à morte. Há divertimento em observar cruzes enferrujadas, adornos religiosos, as flores de plástico. Graça observa de longe a filha mais nova e o neto, parte da família que lhe deu forças para sair do inferno. Jamais pensou que tivesse tanta força o amor. Amava o marido e os filhos todos, os cinco que eram dela e os que adotara por força dos desvios da vida. Para ela, sim, os muros e as grades do cemitério eram símbolos de ausência de vida. Ela lembrava os dias e as noites todas em que sofreu os horrores daquele outro lugar, sentindo frio, medo, arrependimento, somente chão, teto, paredes e muitas grades. A galeria toda era um viveiro de mulheres endurecidas, sedentas, algumas secas de sentimentos, outras, fervilhando rancores. Tô no ódio – escreveu Graça desatinada certa vez, recordando da cilada em que ela própria havia se metido e que a colocara lá. Dera ouvidos às pessoas erradas, perdeu o rumo. Teria entrado em depressão, não a tivessem designado para ajudar a cuidar das crianças na creche recém reformada. Ali, cuidando do pequeno Noel, sentiu que a vida ainda podia ser boa, havia uma família, filhos em casa esperando por ela. Olhando nos olhos de uma criança cremos mais na vida, damos mais valor às coisas simples, ficamos mais humildes, acreditamos mais no futuro, escreveu Graça no seu diário, depois de uma tarde de trabalho com os pequenos. O futuro. Graça se sente vivendo o que via no espelho daqueles olhinhos.
Tou com sede, vó, chamou-a a vida de volta. Ofegantes, bochechas rosadas, bebem a água gelada da garrafa térmica. Na viagem de volta, as crianças sonolentas sentadas junto dela, Izinha aninhada no colo, cabelinho cheirando a suor, Rico escorado nela, ensaiando sono. O pai era bom, mãe? Era, sim, bom que nem o Dudu, agora dorme que ainda falta muito pra chegar. Era bom, tão bom que não pôde me ver no fundo do poço e morreu antes de eu sair de lá. Por muito tempo Graça curtiu uma grande decepção, Cesinho era o grande amor da sua vida, mas havia feito coisas erradas, sobre as quais ela quase não falava com ninguém. Culpava-o também por ter ido parar naquele lugar. Mas esse sentimento foi aplacando depois que ela ganhou a liberdade e, depois de alguns meses, as boas lembranças abafaram completamente o sentimento ruim. Todo ano, em abril, no dia da morte do marido, Graça ia ao cemitério em memória dele, levava flores, acendia uma vela, rezava, prezava o repetido ritual. Era bom voltar pra casa depois.
O pequeno chalé escondido na beira da estrada é o lugar onde foi morar com os filhos, menos o mais velho. Dudu trabalha na Carris, juntou-se, não quis casamento, foi morar com uma moça, longe, mas é dele que ela e as meninas recebem mimos nos fins de semana. Pacotes de biscoito, a galinha do almoço de domingo, algum brinquedinho pros pequenos, abraço apertado na cozinha depois que todos já saíram da mesa. Os outros, todos debaixo da sua saia depois que ela voltou, assim ela quis. Dois meses em liberdade, Marquinho, o segundo filho, saiu da FASE, e ela o prendeu dentro de casa, deu conselho e comida, longe da gentalha com quem andava antes. Pede pra Deus, dizia Graça, que Ele vai te ajudar. Um dia descobriu o guri lendo uns escritos da igreja evangélica. Ela deixou. Foi a culto, quis ser pastor, não tinha jeito, engasgava-se com as palavras. Coisa melhor aconteceu: nunca mais chegou perto de uma boca de fumo, voltou a estudar, arrumou emprego, Graça sentia os dias aliviados.
Lembrava-se de quando, menos de mês livre, ela recebera o voto de confiança do vizinho, dono de uma chácara de pêssegos. Era tempo de colheita, precisavam de mais gente pra dar conta da safra, trabalho pesado desde os primeiros sinais de sol. O perfume das frutas compensava qualquer cansaço, e ela ainda podia levar para casa todos os dias quilo ou dois, as crianças se fartavam. Do que sobrava, Graça fazia fogo a lenha atrás do chalé, preparava doce pra passar no pão. Um dia, levou um vidrinho pra dona do mercadinho provar, a mulher aprovou, e graça recebeu no dia seguinte uma encomenda. Variou receita, aumentou produção, nunca mais parou. Era boa como estar em banheira cheia de água morna a sensação de liberdade, poder trabalhar, filhos na escola, alimentados. Ao sair desse lugar, espero resgatar o amor, a confiança e acima de tudo o respeito de todos, quero reconstruir minha vida, trabalhar, estudar, ser feliz e fazer minha família feliz para que um dia sintam orgulho de mim ao invés de vergonha, desejou Graça no seu diário, nos tempos de grades, fio de esperança. Lá fazia os novelos, tecia aqui a realidade.
Meio dia. Graça pisa no degrau da pequena varanda, Izinha e Rico entram na sala em correria. Uma onda de cheiro bom vem da cozinha, retalhos de riso, tons mais altos da conversa das outras meninas chegam de dentro da casa, o colorido das roupas secando ao sol. Num dia como hoje, Graça, as mãos algemadas para trás, desceu aos empurrões da gaiola, olhou para cima, sol queimando, e viu as janelas do Madre cheias de roupas íntimas penduradas, mãos que acenavam, cabeças ainda desconhecidas, promessa de pesadelo. Um peso imenso caiu sobre ela. Por quê? Se pudesse voltar no tempo... Não, a vida é pra frente, se convenceu meses depois. No dia em que saiu de lá, veio um sentimento estranho, tinha deixado para trás desafetos, mas também criara laços somente possíveis quando se está em condição reles, sem nada, nenhum interesse. Mulheres e crianças confinadas, num fazer por si, ilhadas no tempo e espaço, a indiferença passeando solene do lado de fora. A despeito dos comentários furtivos e dos olhares desviados, a alegria foi chegando devagar, depois de dias em casa, trazida pelo burburinho da criançada. Era preciso recomeçar.
Uma tonteira se abateu sobre Graça de repente, o estômago embrulhou. Seria a fome? Deixou as pernas afrouxarem, sentou no degrau, tirou os chinelos e baixou a cabeça. A terra acariciava os pés descalços. Olhos no chão, Graça admirava as formigas em carreira no meio do capim, indo e voltando, carregando comida, ora pareciam se chocar, ora detinham-se como que conversando, umas com cargas maiores que o próprio corpo, outras vagavam perdidas. Somos como as formigas, entendeu subitamente. Da porta, passos. Vem comer, morena, tá no mundo da lua? Um dia ainda acerto as contas com o Cesinho-do-cemitério que te deixa assim, sussurrou a voz com seu jeito sorrateiro, beijo na nuca, mãos acesas em afago sobre sua barriga. Uma vontade de chorar explode dentro dela, mas Graça ri da conversa mole do seu homem e deixa a vida rolar.
Pomba
Uma janela fechada ainda é uma janela pergunto eu sento aqui todo dia pra ver se vejo alguma coisa que seja diferente e só vejo as mesmas árvores os telhados as antenas de televisão lá no morro e eu aqui dentro fazendo nada queria sair poder voar pra bem longe mas que besteira ninguém sai desse lugar desse jeito precisaria ter uma varinha mágica e aqui todo mundo é bruxa sem saber feitiço nenhum que ajude em alguma coisa continuamos com as grades muita parede e o teto como uma nuvem pesada em cima das nossas cabeças por falar em cabeça tem umas aqui piores que as moscas ficam zumbindo no meu ouvido me provocando só querem tirar proveito quando tentam me sacanear eu faço que não entendo arrumo uma cara de sonsa aí elas me deixam em paz mas o que eu queria dizer é que aqui dentro é muito rancor com um pouco de amizade só que eu tento guardar mesmo sabendo que não dá pra confiar em ninguém. Tudo que eu penso parece pequeno e uma coisa insignificante me desassossega olhando através da janela as pessoas que passam na rua pensam que nós somos feras numa jaula e passam de carro popular ou importado não importa até a pé mesmo e nem olham nem imaginam que estou aqui em cima espiando entre sutiãs e calcinhas e pensando tudo isso às vezes alguém muito raro acontecer alguém dá uma olhadinha bem pouca e depois desvia os olhos como se levasse choque ninguém quer ver aquilo que incomoda como se a gente fosse o entulho da cidade é muito triste pensar nisso todos acham de última classe a gente aqui encerrada e os parentes gritando lá em baixo na calçada pra saber como estamos se precisamos de alguma coisa cigarro doce um abraço ou trazendo notícia dos nossos filhos em casa se estão bem de saúde e estudando pensam que a gente não tem ninguém não fazem idéia da dureza mas eu sei que as pessoas também fazem isso de disfarçar pra fingir que tudo vai bem na frente de hospital de hospício e da televisão quando aparece a imagem da favela cheia de mulher e criança com fome de tudo isso eu sei porque lá na vila tinha classe média que ia só pra buscar erva e pó e nem se importava com a gente eu via e sabia mas não podia falar nada a janela era outra mas a vida também era uma cadeia de coisa ruim pressionando por todos os lados acho que as pessoas pensam que elas não fazem nada de errado e ficam comprando muamba molhando a mão de político usando droga achando que tudo é muito certo mas o certo mesmo é que eles são gente igual a nós só que com mais dinheiro. Outra janela na minha vida é o olho vivo e sem malícia do meu filho que tem dois aninhos e vive comigo aqui tento não pensar como é triste uma criança dentro deste inferno mas parece que ele nem percebe e brinca e ri quando olho e falo amor da mãe ele se derrete todo parece que mora num palácio de tanta alegria e eu tento dominar o meu sofrimento nem sei como vou explicar quando ele crescer que também teve preso por um crime que só eu cometi talvez nunca me perdoe por ouvir no meio das conversas nas esquinas pelas costas que é filho de uma ex-detenta mas ele vai lembrar dos dias de sombra e vai dizer que eu paguei pelos meus erros como manda a lei já prometi a Deus que não volto mais pra esse lugar devia era prometer a Ele que não vou errar caminho quando sair daqui mas quem faz tudo certo o tempo todo só os olhos do meu amorzinho me dão força e coragem e é através deles que eu vejo uma liberdade muito maior que aquela que parece existir do outro lado da janela quadriculada dessa prisão como num calendário em que aparece sempre a mesma paisagem nua trocando a roupa nas estações do ano passa um mês é outono com folhas amareladas no chão e no outro já é inverno tudo acinzentado e eu vou arrancando uma por uma as folhinhas contando os dias que faltam pra sair daqui tem feito um tempo muito frio pouca roupa pra se cobrir de noite eu abraço o meu nenê e ele fica bem quentinho não sei se posso aguentar até chegar a primavera então fico olhando a chuva cair lá fora e uma pomba veja só vem pousar bem aqui se protegendo do vento e da chuva ela nem sabe que isso aqui é ainda pior pomba burrinha essa tanto lugar bom pra se abrigar bato na vidraça e ela nem me olha fica com a cabeça enterrada nas penas cochilando as vezes se coçando e nem me dá bola igualzinha aos outros todos que estão lá fora. De manhã cedo sempre um alvoroço posso ver carros chegando as mães deixando os filhos e fico achando muito estranho uma escola do lado de um presídio o que será que as professoras falam pras crianças quando elas perguntam por que tanta mulher presa acho que devem responder porque são criminosas e devem ficar apartadas da sociedade sem divertimento longe do conforto da família e fim sem muita explicação porque é melhor não ir fundo no assunto queria saber o que iam responder se uma guriazinha ou guri mais esperto dissesse e os velhinhos no prédio do outro lado do presídio que fizeram pra estarem assim longe de tudo quase esquecidos hein mas esse é um assunto que incomoda muito e só eu mesmo pra ficar pensando mais uma bobagem dessas se os grandes ficam tapando sol com peneira fingindo não enxergar a realidade o problema é deles afinal todos um dia vão ficar velhos isto é se tudo der certo se não morrerem antes de doença acidente ou bala e cada um de qualquer jeito vai remoer os seus pecados assim como eu. Apagaram a luz mandaram fazer silêncio e as outras abafam os cochichos na escuridão só a janela encerrando a claridade que vem da noite lá fora como um quadro branco pendurado numa parede preta e eu olhando pra ele dentro dessa galeria marginal o que eu queria era fazer parte dessa pintura a lua subindo por cima do morro a cidade embaixo eu e meus filhos sossegados em qualquer endereço que não seja esse aqui Lili no que tu tá pensando shhhh em nada já vou deitar só mais um pouco boa companheira se preocupa comigo que eu fico acordada escrevendo rabiscando no meu diário tateando as linhas digo pra ela que virou um vício toda noite sem sono tento passar pro papel um pouco do pensamento senão a cabeça não aguenta tanta confusão não é brincadeira o tempo passando e a gente uma água de poço será viver isso meu Deus não é que eu queira dar uma de anjo não foi fazendo boa coisa que eu vim parar neste lugar mas a cruz é pesada nas costas de qualquer um seja bom ou mau e tem também o meio mau será o mesmo meio bom sei lá nunca tinha pensado nisso mas o que eu dizia era que escrever amansa dá um alívio eu fico parada e a idéia fujona como asa de pomba ultrapassa as grades da janela vai perambulando pra longe uma maneira de ir levando as horas e na mão agora eu sei o lápis é a varinha que vai fazendo mágica com as palavras descarregando um pouco da amargura dos dias que perdi ou que me roubaram no risco das letras como que vou serrando o ferro e recuperando uma certa liberdade pela escrita.
Encantamento
“[...] Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." (Grande Sertão: Veredas, J. G. Rosa)
A chegada
O castelo encerra sons – um vozerio indistinguível que vem das salas. Durante o dia, o sol penetra através do telhado e vai pousar no chão – as luzes descobrem o tamanho do espaço. Os diversos tons esverdeados e a superfície dos blocos sem polimento revelam a textura da pedra bruta que reveste o piso. As partes dispostas em vários tamanhos formam quadrados que se encaixam e resultam em figuras simétricas, aparentemente iguais, formando fileiras do mesmo desenho. Nove são os blocos que montam cada um dos inúmeros quebra-cabeças, uma sucessão de montagens em que os quadriláteros vão se unindo pelas linhas longitudinais dos rejuntes.
Ao caminhar sobre o pavimento frio, tenho a sensação de uma direção obrigatória a seguir, como no deslocamento das peças de um jogo de xadrez. Cruzar o saguão em diagonal me retém o passo; procuro não pisar nas linhas divisórias, como se o fato de o meu sapato tocar, ao mesmo tempo, dois conjuntos, possa promover uma desordem na estática simetria.Vista do alto das escadarias, noto que a superfície de rocha fria ganha uma aveludada homogeneidade; os desenhos ora parecem peças costuradas de uma colcha de retalhos ora uma planície recortada de verdes campos – sólido chão em que arvoraremos saberes.
Nenhuma de nós teve ímpeto irresistível de entrar nele, nada de cantar senhas ou palavras mágicas, nem de sonhos ou visões. Alguns presságios. Dentro das salas, elas – as bruxas – iam-nos fisgando aos poucos em suas malhas invisíveis, tramando nós, introjetando em nossas mentes pequenas doses de misteriosa poção. Éramos enlaçadas astuciosamente por ardilosa mágica e, artimanha finda, saíamos seduzidas, trôpegas, os olhos esbugalhados, tez abobalhada, o coração em palpitações. O feitiço das sãs palavras estendia raízes e se apoderava lenta e irremediavelmente das nossas almas inocentes.
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A Transmutação
Os dias passavam. Notávamos que brotavam dentro de nós curiosidades, alguma coisa parecida com nascer de um ovo sem casca. Elas, as bruxas, atraiam-nos quase todas as noites para o ritual sagrado, iniciavam premeditada letramadura. Abríamos os livros, as brasas incandescentes na forja, elas giravam o caleidoscópio. Víamos tudo que somente olhos quase fechados podem ver – espreitávamos buracos de fechadura. A ladainha era assombrosa. Invocados, os deuses acordavam, ressoavam em trombetas, muitos deles víamos materializados e circulando entre nós, mortais, suas vísceras e mentes abertas, escancaradas, pulsantes de histórias jamais ouvidas. Benfazejas, elas apresentavam-nos os monstros sagrados, adulavam-nos, seduziam-nos – caminho sem volta – tornávamo-nos suas cúmplices.
A transmutação ocorria lentamente. Apreciávamos erva daninha, inseto, goteira, toda espécie de não-dizer, sentimento fugaz, entrelinhas. Dentro e fora do castelo, já ensaiávamos os rituais de iniciação – bruxas aprendizes que éramos. Fazíamos com mesuras e cerimônias os chamados, os deuses brindavam-nos com regalo, longas horas entoadas em prosa e verso – nós ouvíamos e dançávamos inebriadas. Percebíamo-nos peixes dentro d’água. Muitos nos viam como uma tríade de nefasto gosto. Em que rio tínhamos nos banhado?
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A despedida
Agora, cumprem-se os derradeiros rituais. Seremos, enfim, lançadas no despenhadeiro. Como aves que ensaiam seu primeiro vôo, resta-nos apenas bater as asas. Como quem parte de um porto a outro, dada a travessia, resta-nos somente chegar ao outro lado. Mas que margem incerta é essa em que aportaremos? Nos nossos espíritos embotados ecoam vocábulos ancestrais, somos chamadas por vozes misteriosas, rodamoinhos se movem, tecem as bruxas-mestres as últimas fibras do manto das iniciadas. Então, no púlpito armado em pompa e ostentação, tomaremos o cetro, honraremos o uno mandamento, colaremos o grau conferido àqueles que sucumbem às tentações e deixam-se ungir – óleo sagrado e profano – pelo estranhamento das palavras.
–"O mal está feito" – como profetizara um dia a clarificada maga chamada Clarice.
Em breve deixaremos o castelo com o manto novo sobre os ombros, elas nos empurrarão de leve, o barco se afastando, elas nos acenando, juntos aurora e crepúsculo – dissimularemos saudades. Tão certas as feiticeiras de que nada é seguro, de que quase tudo nos escapará entre as mãos, de que não haverá jamais terra firme. Ah, Sagradas Bruxas! Nau, tempestades, calmaria... por que águas navegaremos? Tornamo-nos irmãs pela comunhão das Letras. Como explicar que ainda sendo as mesmas também somos outras? Sabemos atrás de nós diversas naus ancorando; vemos horizonte em bruma à frente. Seguimos agradecidas: porque altas brilham, suas estrelas serão sempre nossas guias.
A chegada
O castelo encerra sons – um vozerio indistinguível que vem das salas. Durante o dia, o sol penetra através do telhado e vai pousar no chão – as luzes descobrem o tamanho do espaço. Os diversos tons esverdeados e a superfície dos blocos sem polimento revelam a textura da pedra bruta que reveste o piso. As partes dispostas em vários tamanhos formam quadrados que se encaixam e resultam em figuras simétricas, aparentemente iguais, formando fileiras do mesmo desenho. Nove são os blocos que montam cada um dos inúmeros quebra-cabeças, uma sucessão de montagens em que os quadriláteros vão se unindo pelas linhas longitudinais dos rejuntes.
Ao caminhar sobre o pavimento frio, tenho a sensação de uma direção obrigatória a seguir, como no deslocamento das peças de um jogo de xadrez. Cruzar o saguão em diagonal me retém o passo; procuro não pisar nas linhas divisórias, como se o fato de o meu sapato tocar, ao mesmo tempo, dois conjuntos, possa promover uma desordem na estática simetria.Vista do alto das escadarias, noto que a superfície de rocha fria ganha uma aveludada homogeneidade; os desenhos ora parecem peças costuradas de uma colcha de retalhos ora uma planície recortada de verdes campos – sólido chão em que arvoraremos saberes.
Nenhuma de nós teve ímpeto irresistível de entrar nele, nada de cantar senhas ou palavras mágicas, nem de sonhos ou visões. Alguns presságios. Dentro das salas, elas – as bruxas – iam-nos fisgando aos poucos em suas malhas invisíveis, tramando nós, introjetando em nossas mentes pequenas doses de misteriosa poção. Éramos enlaçadas astuciosamente por ardilosa mágica e, artimanha finda, saíamos seduzidas, trôpegas, os olhos esbugalhados, tez abobalhada, o coração em palpitações. O feitiço das sãs palavras estendia raízes e se apoderava lenta e irremediavelmente das nossas almas inocentes.
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A Transmutação
Os dias passavam. Notávamos que brotavam dentro de nós curiosidades, alguma coisa parecida com nascer de um ovo sem casca. Elas, as bruxas, atraiam-nos quase todas as noites para o ritual sagrado, iniciavam premeditada letramadura. Abríamos os livros, as brasas incandescentes na forja, elas giravam o caleidoscópio. Víamos tudo que somente olhos quase fechados podem ver – espreitávamos buracos de fechadura. A ladainha era assombrosa. Invocados, os deuses acordavam, ressoavam em trombetas, muitos deles víamos materializados e circulando entre nós, mortais, suas vísceras e mentes abertas, escancaradas, pulsantes de histórias jamais ouvidas. Benfazejas, elas apresentavam-nos os monstros sagrados, adulavam-nos, seduziam-nos – caminho sem volta – tornávamo-nos suas cúmplices.
A transmutação ocorria lentamente. Apreciávamos erva daninha, inseto, goteira, toda espécie de não-dizer, sentimento fugaz, entrelinhas. Dentro e fora do castelo, já ensaiávamos os rituais de iniciação – bruxas aprendizes que éramos. Fazíamos com mesuras e cerimônias os chamados, os deuses brindavam-nos com regalo, longas horas entoadas em prosa e verso – nós ouvíamos e dançávamos inebriadas. Percebíamo-nos peixes dentro d’água. Muitos nos viam como uma tríade de nefasto gosto. Em que rio tínhamos nos banhado?
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A despedida
Agora, cumprem-se os derradeiros rituais. Seremos, enfim, lançadas no despenhadeiro. Como aves que ensaiam seu primeiro vôo, resta-nos apenas bater as asas. Como quem parte de um porto a outro, dada a travessia, resta-nos somente chegar ao outro lado. Mas que margem incerta é essa em que aportaremos? Nos nossos espíritos embotados ecoam vocábulos ancestrais, somos chamadas por vozes misteriosas, rodamoinhos se movem, tecem as bruxas-mestres as últimas fibras do manto das iniciadas. Então, no púlpito armado em pompa e ostentação, tomaremos o cetro, honraremos o uno mandamento, colaremos o grau conferido àqueles que sucumbem às tentações e deixam-se ungir – óleo sagrado e profano – pelo estranhamento das palavras.
–"O mal está feito" – como profetizara um dia a clarificada maga chamada Clarice.
Em breve deixaremos o castelo com o manto novo sobre os ombros, elas nos empurrarão de leve, o barco se afastando, elas nos acenando, juntos aurora e crepúsculo – dissimularemos saudades. Tão certas as feiticeiras de que nada é seguro, de que quase tudo nos escapará entre as mãos, de que não haverá jamais terra firme. Ah, Sagradas Bruxas! Nau, tempestades, calmaria... por que águas navegaremos? Tornamo-nos irmãs pela comunhão das Letras. Como explicar que ainda sendo as mesmas também somos outras? Sabemos atrás de nós diversas naus ancorando; vemos horizonte em bruma à frente. Seguimos agradecidas: porque altas brilham, suas estrelas serão sempre nossas guias.
O Acaso
...Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.
(J. G. Rosa)
Muitas vezes, sem que planejemos nada, acontecimentos inusitados nos enchem da mais pura emoção. Costumo dizer que as coisas não planejadas podem nos reservar as melhores surpresas, o arrebatamento de momentos únicos, que permanecem doces, límpidos, na nossa lembrança.
Subíamos, meu marido e eu, pela rota dos vinhedos. Dia ensolarado, paisagem bucólica, apreciávamos os parreirais, as casas próximas à estrada, as imponentes construções dos hotéis e das vinícolas. Vislumbramos, lá no alto, as torres de uma igreja, e para lá nos dirigimos, sem nada combinar. O mapa sinalizava uma cidadezinha de nome Monte Belo; rodamos poucas quadras até estacionarmos em frente à matriz. Curiosamente, naquele momento exato, os sinos repicaram as dez horas. De mãos dadas, sorrimos – aquilo era lindo! –, o som majestoso era para nós um bom presságio, parecia que estávamos sendo bem acolhidos por aquele lugar. Entramos na nave, e o deslumbramento tomou conta: teto e paredes finamente pintados, vitrais coloridos, arte incomum e não imaginada fora das grandes catedrais. Ajoelhamos – eu de olhos bem abertos para apreciar tamanha beleza – e agradecemos aquele momento.
Íamos sair quando me chamaram a atenção as janelas sem vidros do lado direito, cerradas com tábuas; receamos que a fúria de um temporal tivesse passado por ali. De repente, uma amável senhora, da qual não sei o nome, mas cujo semblante alegre lembro bem, surge de uma porta lateral. Perguntamos qual a causa da falta dos vitrais, e ouvimos dela uma explicação clara e precisa, digna de lição a bons profissionais do turismo. Ela nos contou que os vitrais, se quebrados, não poderiam ser repostos, pois eram exclusivos, vindos de não sei onde. Foram então retirados cuidadosamente dos caixilhos para limpeza e manutenção, para depois serem recolocados, cada um no seu lugar, assim como já havia sido feito com os do lado oposto. Olhei, e vi que o colorido dos desenhos bíblicos faiscavam como novos ao sol. A anfitriã casual ainda nos contou que a igreja fora restaurada na década de 60, pelo esforço da comunidade e do padre daquela paróquia na época, ao qual, por sinal, eram atribuídos alguns milagres. Estava ele sepultado ali mesmo, disse, e nos conduziu até o jazigo, na pequena sala ao lado da porta principal, sobre o qual, em meio às flores colhidas nos jardins dos devotos, ardia a luz de muitas velas; sim, disse ainda, ele cuidava dos fiéis, curava enfermos, trabalhava pela comunidade. Antes de nos deixar a sós e ir embora, sem que pudéssemos ao menos agradecer-lhe pela amabilidade e nos despedir, a senhora apontou-nos um caderno sobre a lápide – registro da fé; acrescentei nele também nossas súplicas, pedi para que o sacerdote intercedesse pela compaixão divina.
O sol invadia o ambiente e pousava manso sobre o granito. Pensei em fazer uma prece à alma do bom padre, mas ouvi um som peculiar de vozes em coro. Saímos à porta da sala e podemos ver, próximo ao altar, um grupo de crianças, sob a orientação do atual sacerdote ou de um professor – isso não sabemos –, escutando atentas uma música clássica. As vozes em harmonia perfeita reverberavam na arquitetura peculiar do templo; o altar adornado em flores, as crianças, o som mágico, o colorido vibrante dos vitrais, a beleza dos arabescos e imagens, tudo estava ali, em comunhão, ao alcance de nossos olhos – Deus estava entre nós.
Pensei num instante como o cotidiano, sem nos apresentar algo diferente durante dias, pode também oferecer-nos subitamente, em poucos minutos, uma sucessão de sublimes presentes, delicados como mimos de mãe na infância. Permanecemos parados e mudos por alguns instantes, uma vontade de ficar por mais tempo, porém as minhas lágrimas poderiam se abrir em comporta e perturbar a alegria dos meninos. Meu marido fez o sinal da cruz, eu repeti o gesto, disfarcei os olhos marejados, e saímos dali como se acordássemos de um sonho. Lá fora, olhei mais uma vez para a igreja antes de ir embora, tentando em vão assimilar o que me era transcendente, e ainda agora sinto que não compreendo toda a magnitude daquele acontecimento ímpar.
(J. G. Rosa)
Muitas vezes, sem que planejemos nada, acontecimentos inusitados nos enchem da mais pura emoção. Costumo dizer que as coisas não planejadas podem nos reservar as melhores surpresas, o arrebatamento de momentos únicos, que permanecem doces, límpidos, na nossa lembrança.
Subíamos, meu marido e eu, pela rota dos vinhedos. Dia ensolarado, paisagem bucólica, apreciávamos os parreirais, as casas próximas à estrada, as imponentes construções dos hotéis e das vinícolas. Vislumbramos, lá no alto, as torres de uma igreja, e para lá nos dirigimos, sem nada combinar. O mapa sinalizava uma cidadezinha de nome Monte Belo; rodamos poucas quadras até estacionarmos em frente à matriz. Curiosamente, naquele momento exato, os sinos repicaram as dez horas. De mãos dadas, sorrimos – aquilo era lindo! –, o som majestoso era para nós um bom presságio, parecia que estávamos sendo bem acolhidos por aquele lugar. Entramos na nave, e o deslumbramento tomou conta: teto e paredes finamente pintados, vitrais coloridos, arte incomum e não imaginada fora das grandes catedrais. Ajoelhamos – eu de olhos bem abertos para apreciar tamanha beleza – e agradecemos aquele momento.
Íamos sair quando me chamaram a atenção as janelas sem vidros do lado direito, cerradas com tábuas; receamos que a fúria de um temporal tivesse passado por ali. De repente, uma amável senhora, da qual não sei o nome, mas cujo semblante alegre lembro bem, surge de uma porta lateral. Perguntamos qual a causa da falta dos vitrais, e ouvimos dela uma explicação clara e precisa, digna de lição a bons profissionais do turismo. Ela nos contou que os vitrais, se quebrados, não poderiam ser repostos, pois eram exclusivos, vindos de não sei onde. Foram então retirados cuidadosamente dos caixilhos para limpeza e manutenção, para depois serem recolocados, cada um no seu lugar, assim como já havia sido feito com os do lado oposto. Olhei, e vi que o colorido dos desenhos bíblicos faiscavam como novos ao sol. A anfitriã casual ainda nos contou que a igreja fora restaurada na década de 60, pelo esforço da comunidade e do padre daquela paróquia na época, ao qual, por sinal, eram atribuídos alguns milagres. Estava ele sepultado ali mesmo, disse, e nos conduziu até o jazigo, na pequena sala ao lado da porta principal, sobre o qual, em meio às flores colhidas nos jardins dos devotos, ardia a luz de muitas velas; sim, disse ainda, ele cuidava dos fiéis, curava enfermos, trabalhava pela comunidade. Antes de nos deixar a sós e ir embora, sem que pudéssemos ao menos agradecer-lhe pela amabilidade e nos despedir, a senhora apontou-nos um caderno sobre a lápide – registro da fé; acrescentei nele também nossas súplicas, pedi para que o sacerdote intercedesse pela compaixão divina.
O sol invadia o ambiente e pousava manso sobre o granito. Pensei em fazer uma prece à alma do bom padre, mas ouvi um som peculiar de vozes em coro. Saímos à porta da sala e podemos ver, próximo ao altar, um grupo de crianças, sob a orientação do atual sacerdote ou de um professor – isso não sabemos –, escutando atentas uma música clássica. As vozes em harmonia perfeita reverberavam na arquitetura peculiar do templo; o altar adornado em flores, as crianças, o som mágico, o colorido vibrante dos vitrais, a beleza dos arabescos e imagens, tudo estava ali, em comunhão, ao alcance de nossos olhos – Deus estava entre nós.
Pensei num instante como o cotidiano, sem nos apresentar algo diferente durante dias, pode também oferecer-nos subitamente, em poucos minutos, uma sucessão de sublimes presentes, delicados como mimos de mãe na infância. Permanecemos parados e mudos por alguns instantes, uma vontade de ficar por mais tempo, porém as minhas lágrimas poderiam se abrir em comporta e perturbar a alegria dos meninos. Meu marido fez o sinal da cruz, eu repeti o gesto, disfarcei os olhos marejados, e saímos dali como se acordássemos de um sonho. Lá fora, olhei mais uma vez para a igreja antes de ir embora, tentando em vão assimilar o que me era transcendente, e ainda agora sinto que não compreendo toda a magnitude daquele acontecimento ímpar.
Ciclo Ocre
Certa vez – era eu muito pequena, mas grande o suficiente para hoje poder me lembrar do que vou contar – apareceram no céu uns círculos avermelhados. Era um lindo final de tarde de outono, ou seria de inverno... não sei, os últimos vestígios de sol ainda deixavam uma tênue, quase nenhuma mesmo, claridade azulada no poente. Meu pai chegou da venda esbaforido, batendo nervosamente na porta. Minha mãe abriu, e ele nos chamou para vermos também o indecifrável. Olhávamos extasiados aquilo, o coração aos pulos, o pensamento borbulhante de interrogações. Céu limpo, ar parado, somente os círculos de fogo. Ao mesmo tempo em que nos refazíamos do choque daquela novidade terrível e espetacular, perguntávamos uns aos outros: seriam extraterrestres, invasores cruéis, o fim do mundo? Trariam eles a cura para todas as doenças ou seriam como um maligno tumor que estenderia metástase sobre nós, até liquidar tudo? Conforme substituíamos as teorias mais fracas por outras, no afã de desvendar o mistério, íamos percebendo que também os halos luminosos – cerca de cinco ou seis –, um após o outro, eles também iam esmaecendo, caindo para o tom alaranjado, até por fim desaparecerem definitivamente de nossas vistas.
Deus sabe bem da decepção que sofremos meus irmãos e eu. Depois da possibilidade de um milagre cósmico ter sido despertada em nós por aquele acontecimento incomum, ele nos escapava como lambari entre os dedos, sem nos dar o direito de apreciá-lo ao menos durante aquela noite toda.
Na nossa vidinha simples no campo, vivíamos sempre a cata de algo inusitado – crianças que éramos – tudo dentro dos limites da terra em que habitávamos: cobra com duas cabeças, ovo de duas gemas, redemoinho, ninho de beija-flor, lagartas dormitando nos casulos. Já tínhamos visto, sim, alguns eclipses do sol e da lua e a luz longínqua de satélites que, de vez em quando, vagueavam nas noites daquele mesmo céu. Da perspectiva infantil, porém, nada que houvéssemos presenciado até aquele momento jamais poderia se comparar com aquilo. Não podia, então, um leque enorme de possibilidades aparecer de repente diante dos nossos olhos para sumir em pouco mais de meia hora. E os dias e noites que não mais seriam os mesmos, os relatos de pessoas que teriam visto ou mantido contato com os visitantes estranhos, o planeta aos poucos sendo invadido por criaturas que dominavam o espaço? Se não eram eles, então o que era aquilo? Se não eram eles, bons ou maus, estávamos então sozinhos no universo, como antes? Oh... Esse último pensamento, em especial ele, latejou por muito tempo ainda na minha inocente cabeça, na cama antes do sono, nos passeios solitários, no tédio da escola. Nenhuma explicação.
Os dias se passavam, esperávamos ansiosos anoitecer, os olhos varriam palmo a palmo o céu pintado de estrelas – as mesmas de sempre –, lamentávamos quando estava nublado. Nunca mais aquele esplendor escarlate coroou o ocaso, nem instigou mais a criatividade dos nossos sonhos, nem fez brotar mais em nossa imaginação a possibilidade de o inverossímil acontecer. Era o início de um tempo de existência ocre, que foi amarelando no bamboleio benfazejo dos dias e durou tanto quanto o ressentimento consegue sobreviver dentro de um coração infantil.
Deus sabe bem da decepção que sofremos meus irmãos e eu. Depois da possibilidade de um milagre cósmico ter sido despertada em nós por aquele acontecimento incomum, ele nos escapava como lambari entre os dedos, sem nos dar o direito de apreciá-lo ao menos durante aquela noite toda.
Na nossa vidinha simples no campo, vivíamos sempre a cata de algo inusitado – crianças que éramos – tudo dentro dos limites da terra em que habitávamos: cobra com duas cabeças, ovo de duas gemas, redemoinho, ninho de beija-flor, lagartas dormitando nos casulos. Já tínhamos visto, sim, alguns eclipses do sol e da lua e a luz longínqua de satélites que, de vez em quando, vagueavam nas noites daquele mesmo céu. Da perspectiva infantil, porém, nada que houvéssemos presenciado até aquele momento jamais poderia se comparar com aquilo. Não podia, então, um leque enorme de possibilidades aparecer de repente diante dos nossos olhos para sumir em pouco mais de meia hora. E os dias e noites que não mais seriam os mesmos, os relatos de pessoas que teriam visto ou mantido contato com os visitantes estranhos, o planeta aos poucos sendo invadido por criaturas que dominavam o espaço? Se não eram eles, então o que era aquilo? Se não eram eles, bons ou maus, estávamos então sozinhos no universo, como antes? Oh... Esse último pensamento, em especial ele, latejou por muito tempo ainda na minha inocente cabeça, na cama antes do sono, nos passeios solitários, no tédio da escola. Nenhuma explicação.
Os dias se passavam, esperávamos ansiosos anoitecer, os olhos varriam palmo a palmo o céu pintado de estrelas – as mesmas de sempre –, lamentávamos quando estava nublado. Nunca mais aquele esplendor escarlate coroou o ocaso, nem instigou mais a criatividade dos nossos sonhos, nem fez brotar mais em nossa imaginação a possibilidade de o inverossímil acontecer. Era o início de um tempo de existência ocre, que foi amarelando no bamboleio benfazejo dos dias e durou tanto quanto o ressentimento consegue sobreviver dentro de um coração infantil.
Wednesday, March 10, 2010
Casa Velha
Restam somente lembranças. Mais que isso, sentimentos. Os dias eram longos, feitos de rituais que se cumpriam do amanhecer à noite. Os fins de semana, ao contrário, pareciam muito curtos e quando terminavam sempre deixavam em mim uma sensação de tempo roubado – momentos que gostaria de ter prolongado – tantas as coisas que ainda queria ter feito.
Aos domingos, entrávamos no jipe e íamos passar o dia na casa do meu avô, pai de meu pai. Saíamos cedo, por volta das oito horas, percorrendo alguns quilômetros pela estrada de chão que, à medida que avançávamos, estreitava-se cada vez mais, até se tornar quase uma trilha onde o capim crescia abundante. A vegetação rasteira ladeava as beiradas do caminho e, logo atrás dela, as cercas de arame farpado demarcavam a pequena propriedade e impediam que gado, ovelhas e cavalos escapassem. As terras do meu avô iniciavam-se na estrada e desciam, rumo oeste, até as margens do rio Piratini. Atravessávamos a porteira e, em seguida, avistávamos a casa de telhado escuro, caiada de branco, de muitas janelas e circundada por uma calçada estreita. Em frente à morada, a lagoa, as roseiras, os pés de camélia. Do lado direito, os galpões, a mangueira, o aerodínamo, o banheiro do gado. À esquerda, as ervas de chá e a horta. E o gramado verde, circundando tudo. Dentro da casa, na parte da frente, havia a sala principal e três quartos. Aos fundos, dois ou três degraus abaixo, ficava o quarto dos hóspedes, a despensa, uma sala menor, a cozinha e a sala de jantar, e é nesta que o vô Norico costumava repousar nas manhãs de domingo.
Ficava sentado abaixo da janela, na sua cadeira de balanço, feita de madeira crua e couro, coberta por um peleguinho bem tratado e sob medida para o assento. Um grande rádio valvulado, com caixa de madeira envernizada, ficava no lado oposto, apoiado sobre uma prateleira fixada na parede, longe do alcance das crianças. Eu observava vovô ali, com suas bombachas largas e seus chinelos de sola, cabelos grisalhos, enquanto ele tomava chimarrão e escutava as notícias. Seu semblante guardava mistérios, suscitava-me uma espécie de devoção religiosa, um respeito mítico.
Suas palavras eram como ordens, incontestáveis, não havia nelas tom de rancor, mentira, maldade ou deboche. De comportamento calmo e ponderado, era também enérgico nas ações e assaz crítico em suas opiniões. Discutia política, recusava com veemência as opiniões contrárias, comprava revistas e jornais quando ia à cidade e, assim, mantinha-se atualizado sobre o Brasil e o mundo. Reto com os costumes, afável com filhos e netos, solidário e respeitado pelos vizinhos, sabia os nomes até daqueles remotamente conhecidos e considerava como parentes próximos os mais longínquos. Meu avô sabia sorrir com os olhos. Ele contava “causos”, alguns herdados de outras gerações, outros que ele mesmo inventava, fazia pequenas mágicas, criava garnisés por divertimento, encilhava e tosquiava como ninguém.
Muito tempo separa este cenário do que resta como relíquia na minha lembrança. No entanto, embora o calendário distancie cada vez mais, ano a ano, a imagem guardada dos fatos, as cenas não ficaram com um tom amarelado ou desbotado, apenas revelam hoje nuances típicas das páginas de livros infantis.
Aos domingos, entrávamos no jipe e íamos passar o dia na casa do meu avô, pai de meu pai. Saíamos cedo, por volta das oito horas, percorrendo alguns quilômetros pela estrada de chão que, à medida que avançávamos, estreitava-se cada vez mais, até se tornar quase uma trilha onde o capim crescia abundante. A vegetação rasteira ladeava as beiradas do caminho e, logo atrás dela, as cercas de arame farpado demarcavam a pequena propriedade e impediam que gado, ovelhas e cavalos escapassem. As terras do meu avô iniciavam-se na estrada e desciam, rumo oeste, até as margens do rio Piratini. Atravessávamos a porteira e, em seguida, avistávamos a casa de telhado escuro, caiada de branco, de muitas janelas e circundada por uma calçada estreita. Em frente à morada, a lagoa, as roseiras, os pés de camélia. Do lado direito, os galpões, a mangueira, o aerodínamo, o banheiro do gado. À esquerda, as ervas de chá e a horta. E o gramado verde, circundando tudo. Dentro da casa, na parte da frente, havia a sala principal e três quartos. Aos fundos, dois ou três degraus abaixo, ficava o quarto dos hóspedes, a despensa, uma sala menor, a cozinha e a sala de jantar, e é nesta que o vô Norico costumava repousar nas manhãs de domingo.
Ficava sentado abaixo da janela, na sua cadeira de balanço, feita de madeira crua e couro, coberta por um peleguinho bem tratado e sob medida para o assento. Um grande rádio valvulado, com caixa de madeira envernizada, ficava no lado oposto, apoiado sobre uma prateleira fixada na parede, longe do alcance das crianças. Eu observava vovô ali, com suas bombachas largas e seus chinelos de sola, cabelos grisalhos, enquanto ele tomava chimarrão e escutava as notícias. Seu semblante guardava mistérios, suscitava-me uma espécie de devoção religiosa, um respeito mítico.
Suas palavras eram como ordens, incontestáveis, não havia nelas tom de rancor, mentira, maldade ou deboche. De comportamento calmo e ponderado, era também enérgico nas ações e assaz crítico em suas opiniões. Discutia política, recusava com veemência as opiniões contrárias, comprava revistas e jornais quando ia à cidade e, assim, mantinha-se atualizado sobre o Brasil e o mundo. Reto com os costumes, afável com filhos e netos, solidário e respeitado pelos vizinhos, sabia os nomes até daqueles remotamente conhecidos e considerava como parentes próximos os mais longínquos. Meu avô sabia sorrir com os olhos. Ele contava “causos”, alguns herdados de outras gerações, outros que ele mesmo inventava, fazia pequenas mágicas, criava garnisés por divertimento, encilhava e tosquiava como ninguém.
Muito tempo separa este cenário do que resta como relíquia na minha lembrança. No entanto, embora o calendário distancie cada vez mais, ano a ano, a imagem guardada dos fatos, as cenas não ficaram com um tom amarelado ou desbotado, apenas revelam hoje nuances típicas das páginas de livros infantis.
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