Monday, August 10, 2009

Noite longa


Esse caso está resolvido! – pensou o detetive Barão, com o cigarro no canto da boca, barba de dois dias, atirado na sua cadeira e com o visível cansaço de quem há muito na dorme direito.
Dario, “o Barão”, recebera o apelido dos colegas ainda no tempo da faculdade, por causa do seu sobrenome Richthofen, o mesmo do famoso piloto alemão – de codinome Barão – morto na I Guerra Mundial. Assim como o guerreiro perseguira um avião inimigo até as últimas consequências, Dario corria até o fim atrás das pistas que o levassem a um assassino. A verdade é que, ultimamente, o seu faro não andava muito bom.
Para ele, a mulher morta na sexta-feira tinha um amante. O marido, sr. Onofre, um pobre coitado, ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa e trazia as contas pagas em dia. Nenhum dos vizinhos dizia uma letra sequer que manchasse a imagem do homem. Comentavam que era de poucas palavras, embora nunca passasse por ninguém sem dar bom-dia ou boa-tarde. Uma vizinha do casal relatou que, por várias vezes, ele a ajudara a carregar as sacolas do supermercado, mesmo sem ela pedir. Já a vítima, dona Zilá, diziam que era chegada a passeios matutinos, usando vestidos ousados demais para aquelas horas, óculos escuros, sapatos de salto. Aonde ia, ninguém sabia dizer, mas todo mundo suspeitava. Dizia palavra nenhuma para ninguém do prédio. Muda saía, calada chegava. A moradora do primeiro andar disse tê-la visto, um dia, quando passava de ônibus na frente de um boteco da zona norte, de beijos e abraços lá dentro com um homem franzino, meio calvo, um tipo muito parecido com o homem que, para o Barão, era o criminoso. Ele era o único que andava pelas redondezas na hora do crime e tinha aquelas características. Se o biltre tivesse somente ouvido de longe os tiros, como relatara em seu depoimento, por que não sabia contar nada, nenhuma pista sobre o homem que dizia ter visto, minutos antes, brigando com a mulher? E se a mulher estava apanhando, como disse, porque não interveio ou avisou a polícia? O que mais o irritava era a pouca criatividade do cara para inventar uma desculpa. Barão sacudia a cabeça e esboçava um sorriso ao pensar na história mal costurada de que tinha saído de casa por causa de um mosquito, quase duas horas da madrugada. – Essa não cola!, pensava o Barão. Para concluir esse caso, só precisava encontrar a arma do crime que – ele tinha certeza – o pulha havia jogado em algum bueiro ali por perto.

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Um mosquito zumbe na minha orelha. Há tempos não fazia um outubro de tanto calor e uma noite tão sem o que fazer. O melhor é sair da cama e caminhar um pouco, fazer a volta na quadra, dar um pulo no bar do Beto, sei lá, qualquer coisa que não seja ficar aqui suando e sendo picado por esses malditos pernilongos. Arrumo os poucos fios de cabelo que me restam, desço os dois lances de escada até o portão e ganho a rua, assobiando uma música do Legião. Apesar dos mosquitos, a vida é boa! Poucos se atrevem a sair de casa a essas horas e, cacete!, não fosse esse cara gritando com uma vadia no meio da quadra, eu seria o único vivente caminhando na Rua da Praia. Não dá pra acreditar, existem mil mulheres querendo dar pra qualquer um que apareça, e esse imbecil perde tempo discutindo com uma puta dessas. Tusso alto, finjo puxar um pigarro, mas eles nem percebem eu me aproximando. Desço o meio fio da calçada, passo por trás do cara e nem olho pra eles. Mesmo assim, dá pra sentir o bafo de cachaça que sai da boca do bofe. Que se danem, não quero nem saber do rolo dessa gentalha fazendo barraco no meio da rua, ainda mais numa hora dessas. Conforme vou me afastando, percebo que a sujeitinha grita e soluça cada vez mais alto, e o cara agora não diz um ai. Isso é coisa de corno, de cara que leva guampa e, ainda assim, fica escutando o que a vaca tem pra dizer. Ainda bem que quando eu dobrar a esquina será como trocar o canal da televisão: outra rua, outras gentes, quem sabe uma mulher decente, coisa rara hoje em dia. Apresso o passo e... um, dois, três estampidos estalam atrás de mim no momento exato em que alcanço o fim da quadra. A mulher se cala de repente. O coração quase me sai boca afora, as pernas tremem e eu me volto rapidamente pra olhar. Vejo o homem correndo com uma arma na mão, depois atravessando a rua e dobrando na esquina da Praça da Alfândega. A mulher caída no chão. Merda, o filho da mãe atirou na infeliz! E o babaca aqui, por causa de um mosquito, vai acabar a noite tendo que dar explicação pra polícia. Escuto o som da sirene de uma viatura que se aproxima.

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Estava muito nervoso com tudo o que tinha visto acontecer furtivamente entre Zilá e João naquela manhã. Cerrei-me em punhos fechados, amaldiçoei geral. Nem antes - quando nada havia ainda - nem antes eu suportava pensar em outro com ela que não eu. Sucumbi. Horas depois, no meio da rua, ela gritava coisas que eu não queria mais ouvir. Segurava-me o rosto procurando meus olhos, mas eu já não enxergava nada– fulminavam neles finas lâminas. A noite ia alta e vazia, havia poucas pessoas dispostas a enfrentar os perigos de sair àquelas horas, eu cantarolava pensamentos – quando tá escuro e ninguém te ouve... Percebi que alguém passava por trás de mim a passos largos, esperei milésimos que se afastasse, até que o som dos sapatos dobrasse a esquina. Senti a urgência comendo e se lambendo, achei que aquele era o momento certo para agir. Então, a arma que pesava no bolso da minha jaqueta surrada se encaixou perfeita em minha mão, saiu rapidamente para fora e despejou uma, duas, três balas. Só foi o tempo de me desvencilhar do corpo de Zilá, caído sobre minhas botas, com os olhos abertos, uma noite longa pra uma vida curta – e sumi correndo rumo ao cais do porto. Joguei a arma no Guaíba e sai a passo, devagar, sem remorso. Entre os dentes, lanterna dos afogados.

Sunday, August 9, 2009

Um olhar sobre Porto Alegre


De onde eu moro posso saber muito de Porto Alegre. A transformação desta cidade acontece aos meus olhos como um grande e infindo espetáculo. Daqui contemplo em perspectiva o mundo, na porção que me é concedida ver, sentir e ouvir. Posso ver prédios crescerem, incrustados na densa massa de concreto do centro, vejo o Menino Deus, a Azenha, Moinhos, a Glória! Posso ver detalhes em relevos e tons, os contornos da cidade, lá em baixo, ao alcance das mãos. Como estranhas ervas daninhas, vejo brotarem silenciosas, da noite para o dia, as antenas em terrenos baldios, no topo das construções. Vejo o rio Guaíba sendo poluído e, ainda assim, refletindo no espelho da sua água os tons púrpura dos fins de tarde. Vejo sol e lua pelos céus das estações, percorrendo em arco o trajeto cíclico entre verões e invernos, passeando em idas e vindas no horizonte. Prevejo o tempo em transparências e escuridões surgidas do rumo sudeste, os temporais se aproximando, as nuvens de frio, os presságios das secas, a calmaria do tempo bom. Vejo, nos silêncios das manhãs de domingo, as fumaças que se elevam das churrasqueiras. Vejo os incêndios, ouço os barulhos das sirenes, o tumulto das carreatas, vejo os fogos do Ano Novo; silenciosas, a chaminé do Gasômetro, a cúpula da Catedral; as ruidosas evoluções das aeronaves no Sete de Setembro, a revoada dos papagaios nas manhãs ensolaradas. Daqui, amigos, vejo as bandeiras trocarem de cor, balões subirem, discursos se inflamarem, os arcos-íris se formarem depois da chuva. Vejo as copas das árvores tingirem-se com os tons rosados e lilases das paineiras e jacarandás e a chuva colorida das flores banharem o chão de Porto Alegre. Ouço as comemorações dos colorados e tricolores, os sinos da Medianeira, as matracas dos afiadores de facas. Já vi, no céu de Porto Alegre, o passeio do dirigível e do Halley; vi, em noites estreladas, a sombra da terra toda se derramar sobre a lua, e também o sol desaparecer em pleno dia. De onde moro, findo o dia, eu posso ver as luzes de uma cidade que não dorme – braseiro queimando sob as cinzas de um imenso fogo de chão. Daqui – Porto Alegre de ruas e becos – eu te vejo, feliz cidade.

Devoção


Olho a praia – sempre cheia de gente e de surpresas. O mar que conheço é tão somente a luxúria das ondas no vai e vem sobre a areia. Alguns metros adiante, ele é outro, um desconhecido que me causa um medo visceral, o mesmo medo que se tem do escuro na infância. Tanto faz que seja uma viagem a um planeta distante qualquer ou um banho inocente no mar: sempre tenho mais medo desse último, de tão perto que estão os seus secretos perigos. O mar é tudo aquilo que não sei... Basta que me atreva a vencer uns primeiros passos em direção às ondas e, num instante, ele exercerá sua força incontrolável sobre mim – inseto em imensa sopeira –, água e sal invadirão meus pulmões e expulsarão deles o ar, sem piedade. Esta é a punição sofrida por termos desaprendido a respirar também dentro dele, assim como fazem as tartarugas, os leões-marinhos, as sereias.
Uma menina entrou no mar. A primeira onda veio, e ela se arrepiou toda, mas pulou de pura alegria. A água puxou-a mais um pouco, e veio outra onda, que a criança soube aproveitar em um mergulho mais ousado, a sensação leve e refrescante de locomover-se dentro de um útero gigante. Ela pulou de novo, e venceu mais uma onda espumante e cheia de energia, impelida pela massa densa de todo o mar. Nada mais existe.
Do alto da guarita, sob um céu azul-fotografia, alerta a bandeira amarela: o mar é para os peixes. Dois pares de olhos também observam o mar lá de cima, suas evoluções e armadilhas e a ingenuidade afoita de todos que se arriscam dentro dele. Outro mar – feito de guardassóis coloridos – se estende para todos os lados na areia escaldante. Como girassóis gigantes, protegem com suas sombras um sem número de lagartos sonolentos e cansados do sol. O vento nordeste inicia timidamente e avisa que o meio-dia está chegando: hora de reunir tralhas e filhos.
Um apito estridente interrompe a rotina de retirada. Algumas pessoas se levantam e correm em direção à água. A visão dos salva-vidas em frenética corrida ao mar remete todos à necessidade imediata de isentar-se do perigo. Homens, mulheres e crianças se procuram, na ânsia de não pertencer àquele momento em suspenso. O mar – ele sabe aproveitar o descuido das almas pueris. Os homens-de-músculos avançam, na areia os olhares ávidos se estendem como raios para um único ponto: a cabeça de cabelos pretos que mal aparece sobre as ondas. Uma mão solidária se aproxima, eleva-se fora d’água e lança uma bóia cor-de-laranja; outras duas mãozinhas no ar tentam agarrá-la. Ele, o mar – refúgio de incontáveis seres, de formas e cores inimagináveis – brinca de empurrar e puxar, não lhe interessam os méritos fugazes dos homens que nele se arriscam para dele salvar uma única vida. Os braços fortes suspendem a menina, que junta, em meio ao pânico e a vaga, restos de esperança e força para se agarrar à bóia. O mar é vencido em uma rota diagonal, braçada a braçada, até a praia. Na areia, muitas mãos batem palmas – agradecidas por não precisar, elas próprias, de lançarem-se em tamanha e desigual disputa.
A menina, livre do perigo que sequer imaginara – o de rolar pela ladeira vertiginosa do chão do mar, até onde aguardam bocarras vorazes, monstros, grota e escuridão – a menina somente chora e pede pela mãe. Uma multidão de curiosos – como quem recém assistisse a um espetáculo sombrio – aplaude a façanha. Graças! Os santos – disseram uns – escutaram as nossas orações e agiram pelas forças desses homens de olhos atentos, de fortes braços e pernas, trabalhadores de um mar sem remorsos. Deus emprestou-lhes a coragem! – falou a mãe – rosto vermelho, a emoção à flor dos olhos, a filha aconchegada ao colo. Também Mãe Iemanjá – Nossa Senhora dos Navegantes – também ela sorri um riso indecifrável em seu altar de redoma. O mar – este pacientemente espera.

João Caolho


A banca estava sempre cheia de chás. João ficava a maior parte do tempo sentado, lendo com seu único olho uma revista velha ou o jornal do dia. Quando chegava um cliente, largava a leitura com certa relutância, ia afastando o jornal, lendo ainda algumas linhas, até que o largava definitivamente no banquinho ao lado para, só então, atender a pessoa que estava na sua frente. Esboçava um meio sorriso, dizia um pois não e escutava sem interesse o que o cliente falava. O viaduto cinzento abrigava-o da chuva e do sol, porém canalizava o vento nos dias de inverno. Muito magro, João tremia de frio. Não importava quantas camadas de roupa vestisse, o ar gelado atravessava uma a uma, entrava pela pele, até os ossos. Às suas costas, duas madonas de pedra empunhavam tochas que, depois das seis horas da tarde, iluminavam a banca improvisada com caixas de frutas. Ali, de certa forma, sentia-se protegido.
E era por volta das seis e meia, horário de maior movimento de carros e pedestres na avenida que, todos os dias, Ela aparecia. Um pouco antes, João penteava o cabelo, fechava o zíper da jaqueta de nylon, passava uma escova nos sapatos e, intranquilo, esperava. Se um cliente o abordasse naquela hora, atendia-o com mais pressa que o costume, ou mentia que estava recolhendo a mercadoria e despistava-o para concentrar-se na espera. Ela vinha em passos lentos, como que cansada da subida, em direção ao centro, e ele logo a distinguia, viva e colorida, esgueirando-se entre a multidão opaca.
Como o devoto diante da aparição de uma santa, adorava o movimento gracioso da mulher. Dela nada sabia, nem nome, nem profissão, nem amores, sobretudo para ele nada disso tinha importância. Ela se aproximava, ele a observava, apenas isso. Era o único momento de comunhão, em que podia respirar, talvez, uma partícula do mesmo ar que antes estivera nos pulmões dela, percorrera suas artérias e veias, o coração. No momento exato em que passava na sua frente, Ela erguia os olhos para ele, dizia boa-noite, como vai o senhor hoje, a boca bem feita, o rosto claro, imagem sem mácula, ele respondia bem e a senhora vai bem, instante mínimo.
Nunca se soube ao certo o que houve naquela tarde em que ela não veio e nas outras que se seguiram depois. Já passava das sete horas. João estava impaciente, quando se ouviu uma freada brusca. Um burburinho se formou na esquina com a rua de baixo, e João, com o coração apertado, correu também. Uma mulher estava estendida no asfalto, quem sabe morta, meio corpo embaixo de um ônibus. O povo se acercou para ver a cena e ninguém, nem mesmo João, conseguiu reconhecê-la. A ambulância veio, carregou-a, e ele viu apenas um rosto transfigurado, cabelos desalinhados, no chão a poça de sangue, a sirene ecoando na boca da noite.
João voltou para recolher os chás e ir embora, no pensamento a cena da mulher morta se confundindo com o rosto daquela outra que, sem saber, nunca mais verá. Um vento frio percorria a rua, a banca em desordem, ervas rolavam espalhadas pelo chão. João encolheu-se, ajeitou os óculos e sentiu doer seu olho esquerdo na órbita vazia.

Carta de João para Pedro


Pedro, meu irmão, tenho pensado muito em ti. Disseste pra esquecer aquela mulher, lembra, mas antes eu nunca a tivesse visto. Dizem que quem tem um olho só é meio cego, mas também é meio vidente. Eu sabia que aquela história nunca ia dar em nada, que ela era muita coisa pra mim, mas quem pode com uma tentação dessas? Desde aquele dia do acidente com o ônibus que ela nunca mais apareceu. Ela vinha sempre, com um jeito de andar sempre igual, passava aqui pela banca, olhos e dentes como jóias. Depois, eu começava a viver o primeiro minuto das vinte e quatro horas que faltavam pra ela voltar. Hoje é só tristeza, eu sem saber o que aconteceu, não querendo acreditar que era ela ali, toda cheia de sangue, os braços caídos, cabeça sem rosto. Além do mais, o corpo que eu vi naquele dia não me dizia nada, entende, era como se a morta fosse mesmo uma estranha. Mano, o meu olho nunca me enganou, mas achei que fosse bobagem da minha cabeça; agora vejo: só podia ser ela naquele asfalto de sangue, senão, qual a razão do nada dentro de mim? Outro dia atravessei a rua correndo e alcancei uma senhora por trás. Ela levou um susto quando a toquei no ombro, pedi desculpas, disse que ela se parecia com uma amiga minha, fiquei parado na calçada, uma vontade de desaparecer. A Zu nunca desconfiou de nada, acha que ando tonto assim por causa do cansaço, o dia todo no frio, pouco dinheiro. A banca vende cada vez menos, tenho pensado muito em mudar, ir pro interior, quem sabe. Só continuo aqui porque tenho o pressentimento de que uma tarde dessas ela ainda vai aparecer no fim da quadra, vai parar aqui na frente, dizer boa tarde, quanto tempo, uma fraqueza nas pernas, ela indo embora, o sol de novo, o colorido das coisas. Penso só coisa ruim acontecendo, o olho-sem-olho me dói, a vida sem vontade. Sabe, Pedro, te confesso, se não fosse tu, tinha medo até de fazer besteira.

Lobo mau

A criatura se aproximava cada vez mais. A menina tenta correr, sem conseguir sair do lugar, os pés afundando; tenta gritar, e seu grito não é mais do que um mover lento de lábios, sem ar, nem um sussurro. No meio da noite ela acorda, e sabe que o pesadelo apenas está começando, como das outras vezes.
O quarto não está escuro o suficiente para esconder os contornos da porta, onde os seus olhos se fixam como garras. Ela sabe a rotina das outras noites, primeiro o leve movimento do trinco, depois o vão começa a se abrir devagar, a silhueta escura entra e vai se avolumando sem rosto, os braços como amarras, o cheiro forte de cigarro enjoando o ar, a náusea tomando conta do corpo todo. Hoje vai ser diferente, ela diz baixinho, as mãos em concha sobre a boca para ouvir a própria voz. Os pezinhos descem da cama e tocam nus o chão gelado e sujo. O corpinho se movimenta com a rapidez de um ratinho fugitivo, passa uma, duas, as quatro camas que a separam da janela, e alcança o extremo oposto do quarto. Rosnam os primeiros barulhos do outro lado da porta. A vida batendo dentro do peito, ela faz força com os braços magrinhos, a janela geme um rangido e abre generosa uma fresta. O ar da rua invade o quarto e traz com ele uma lembrança branca, nenhum endereço, só pincelada macia de afeto, sabor de leite morno. Ela olha para trás, ainda pode ver a porta mover-se devagar, o sinal da cruz, um pulo apenas, e as asas do anjo abrem-se livres no vazio da madrugada.

Náufrago

Depois daquele dia, Josias nunca mais foi o mesmo homem,levantou da mesa e iniciou uma caminhada sem rumo. Comeu e bebeu o quanto pôde, dormiu em muitas camas, pediu emprestado e não pagou, passou a jogar. E a perder. Perdeu tudo. Um dia, subiu num ônibus e foi bater na porta da única pessoa que poderia ajudá-lo: uma tia de meia-idade, irmã de sua falecida mãe. A mulher era boa conselheira, sabia tecer redes com palavras de consolo capazes de alçar qualquer um do fundo do poço. Era assim que ele se sentia, nas profundezas de um sumidouro, sem achar chão sob os pés. Bateu na porta, esperou, bateu de novo, e nada. Desesperou-se. Ela não estava em casa, quem sabe nem morasse mais ali, talvez tivesse morrido. A imagem da tia morta preencheu de cinza o dedal de esperança que Josias ainda conservava. Tanto tempo sem procurá-la, nem dar notícia, e agora ela, sem saber, dava-lhe o troco. Voltou para casa, o suor frio nas mãos, um torpor no corpo todo. Sua última saída tinha se fechado, não precisaria erguer um punho contra si, era só cerrar os olhos e esperar. Alguém bate na porta. Josias achou inoportuno o som enérgico das batidas, um desrespeito a sua falta de vontade de viver. Trocou passos até o outro extremo do corredor escuro, agarrou-se ao trinco e abriu uma fresta. Uma nesga de sol forte entrou e iluminou o lado esquerdo do rosto do homem, exposto naquele vão timidamente concedido, cegando por um instante a visão do olho entreaberto. O carteiro entregou-lhe rapidamente um envelope grande e se foi, sem dizer palavra. Josias nem olhou para a correspondência que segurava na mão de cera: largou-a esquecida em cima da mesa, sobre a pilha de jornais velhos, espalhados e nunca lidos. O papel pardo do envelope era como uma tábua boiando no mar escuro, depois de um naufrágio, a espera de algum sobrevivente. Mas Josias já não podia perceber nada, atirou-se para sempre na poltrona velha, no canto da sala, encolhido.

Vaso

A anatomia de um vaso é qualquer coisa de útero, receptáculo de coisas vivas. Simples coisas não cabem em vasos, mas coisas-significado, objetos-flores, sentimentos líquidos. A forma do vaso se mostra, por fora, mãos postas em oração, por dentro, o espaço da concha. O vaso sempre aguarda aquilo que será do resto apartado. A fina linha de porcelana, vidro, ferro, barro – a carne – separa a porção do todo, subitamente. Tudo o mais está em volta do vaso, a espera do sentido de uma medida exata, um tanto, ao acaso. Só, o vaso é destaque aos olhos. Somente em vaso a água, a dor, a terra, o sangue. O tempo envasado nas horas, a morte no silêncio dos túmulos. A visão no olho, o dia na clarabóia escura da noite. O viés contido das paixões escondidas, o segredo inviolado, a mulher grávida, o vazio é vaso. Voz, vaso das palavras.Vaso.

Tuesday, August 4, 2009

Alegria-do-jardim


- Seu Delegado, me chame de João das Flores. Faço o favor de contar o acontecido, que não posso fazer silêncio de uma coisa que, sem querer, eu mesmo e mais ninguém viu. Nem queria lembrar de nada, mas a consciência de um pai de família não dorme com um silêncio atordoando a cabeça. Foi na sexta-feira, eu estava voltando do serviço, que o senhor não sabe que eu trabalho na santa casa de noite, sou dos serviços gerais, faço a faxina do jardim central e cuido das roseiras, uma maravilha olhar tudo limpinho, as rosas abrindo. Pois eu tinha acabado de sair, era cinco e meia eu acho, ia faceiro que era o fim da semana e no outro dia eu estava de folga, atravessei a duque e virei na praça, uma friagem que o senhor não faz idéia, assim meio lusco-fusco, aí foi que eu vi a moça conversando. Que era com alguém eu sabia, mas não via a outra pessoa, e eles falavam baixinho. O que me chamou a atenção foi que a moça estava nua, branca como jasmim, e de botas, numa hora daquelas, com aquele frio. Pensei, é meretriz, que mulher direita não fazia isso, e aproveitei pra me esconder na marquise de um edifício e espiar mais um pouco. Ninguém na rua, então um homem muito alto saiu por detrás do caramanchão de buganvílias e foi pra cima da guria, foi aí que eu vi que era briga, ou assalto, ela chorava baixinho, e só falava betão não, betão não. Então ele deu uma facada aqui, bem na barriga, lá dela, que eu quase desmaiei de susto. Fiquei que nem respirava direito, imagina o senhor, ver a mulher estrebuchando, caída no canteiro de alegria-do-jardim, o senhor sabe que é época da flor abrir, tudo vermelhinho e amassado pelo corpo, o homem vindo correndo. Ele passou aqui, bem na frente do meu nariz, eu escondido, ele nem me viu, mas eu vi ele, sim senhor. Tinha quase dois metros de altura, um sujeito bem vestido, paletó, sapato, calça de tergal, roupa fina, não era que nem a gente, não. E cheiroso, o senhor sabe aquele cheiro de xópin quando a gente entra na porta, era esse mesmo, mas o que ele tinha de perfumado tinha de azarado. Pois na corrida caiu do bolso do fujão esse extrato de banco, que eu mando pro senhor junto com essa carta. Ele passou, eu esperei um tantinho, catei o papel do chão, enfiei no bolso e corri até a esquina pra ver se enxergava o cara. Que!, nem rasto, mas o papel eu peguei, e disse aqui em casa que ia servir pra alguma coisa, a gente sabe que qualquer coisa serve nessas horas, não é verdade? Eu tava passando ali na hora certa, pena que a moça...