
Esse caso está resolvido! – pensou o detetive Barão, com o cigarro no canto da boca, barba de dois dias, atirado na sua cadeira e com o visível cansaço de quem há muito na dorme direito.
Dario, “o Barão”, recebera o apelido dos colegas ainda no tempo da faculdade, por causa do seu sobrenome Richthofen, o mesmo do famoso piloto alemão – de codinome Barão – morto na I Guerra Mundial. Assim como o guerreiro perseguira um avião inimigo até as últimas consequências, Dario corria até o fim atrás das pistas que o levassem a um assassino. A verdade é que, ultimamente, o seu faro não andava muito bom.
Para ele, a mulher morta na sexta-feira tinha um amante. O marido, sr. Onofre, um pobre coitado, ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa e trazia as contas pagas em dia. Nenhum dos vizinhos dizia uma letra sequer que manchasse a imagem do homem. Comentavam que era de poucas palavras, embora nunca passasse por ninguém sem dar bom-dia ou boa-tarde. Uma vizinha do casal relatou que, por várias vezes, ele a ajudara a carregar as sacolas do supermercado, mesmo sem ela pedir. Já a vítima, dona Zilá, diziam que era chegada a passeios matutinos, usando vestidos ousados demais para aquelas horas, óculos escuros, sapatos de salto. Aonde ia, ninguém sabia dizer, mas todo mundo suspeitava. Dizia palavra nenhuma para ninguém do prédio. Muda saía, calada chegava. A moradora do primeiro andar disse tê-la visto, um dia, quando passava de ônibus na frente de um boteco da zona norte, de beijos e abraços lá dentro com um homem franzino, meio calvo, um tipo muito parecido com o homem que, para o Barão, era o criminoso. Ele era o único que andava pelas redondezas na hora do crime e tinha aquelas características. Se o biltre tivesse somente ouvido de longe os tiros, como relatara em seu depoimento, por que não sabia contar nada, nenhuma pista sobre o homem que dizia ter visto, minutos antes, brigando com a mulher? E se a mulher estava apanhando, como disse, porque não interveio ou avisou a polícia? O que mais o irritava era a pouca criatividade do cara para inventar uma desculpa. Barão sacudia a cabeça e esboçava um sorriso ao pensar na história mal costurada de que tinha saído de casa por causa de um mosquito, quase duas horas da madrugada. – Essa não cola!, pensava o Barão. Para concluir esse caso, só precisava encontrar a arma do crime que – ele tinha certeza – o pulha havia jogado em algum bueiro ali por perto.
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Um mosquito zumbe na minha orelha. Há tempos não fazia um outubro de tanto calor e uma noite tão sem o que fazer. O melhor é sair da cama e caminhar um pouco, fazer a volta na quadra, dar um pulo no bar do Beto, sei lá, qualquer coisa que não seja ficar aqui suando e sendo picado por esses malditos pernilongos. Arrumo os poucos fios de cabelo que me restam, desço os dois lances de escada até o portão e ganho a rua, assobiando uma música do Legião. Apesar dos mosquitos, a vida é boa! Poucos se atrevem a sair de casa a essas horas e, cacete!, não fosse esse cara gritando com uma vadia no meio da quadra, eu seria o único vivente caminhando na Rua da Praia. Não dá pra acreditar, existem mil mulheres querendo dar pra qualquer um que apareça, e esse imbecil perde tempo discutindo com uma puta dessas. Tusso alto, finjo puxar um pigarro, mas eles nem percebem eu me aproximando. Desço o meio fio da calçada, passo por trás do cara e nem olho pra eles. Mesmo assim, dá pra sentir o bafo de cachaça que sai da boca do bofe. Que se danem, não quero nem saber do rolo dessa gentalha fazendo barraco no meio da rua, ainda mais numa hora dessas. Conforme vou me afastando, percebo que a sujeitinha grita e soluça cada vez mais alto, e o cara agora não diz um ai. Isso é coisa de corno, de cara que leva guampa e, ainda assim, fica escutando o que a vaca tem pra dizer. Ainda bem que quando eu dobrar a esquina será como trocar o canal da televisão: outra rua, outras gentes, quem sabe uma mulher decente, coisa rara hoje em dia. Apresso o passo e... um, dois, três estampidos estalam atrás de mim no momento exato em que alcanço o fim da quadra. A mulher se cala de repente. O coração quase me sai boca afora, as pernas tremem e eu me volto rapidamente pra olhar. Vejo o homem correndo com uma arma na mão, depois atravessando a rua e dobrando na esquina da Praça da Alfândega. A mulher caída no chão. Merda, o filho da mãe atirou na infeliz! E o babaca aqui, por causa de um mosquito, vai acabar a noite tendo que dar explicação pra polícia. Escuto o som da sirene de uma viatura que se aproxima.
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Estava muito nervoso com tudo o que tinha visto acontecer furtivamente entre Zilá e João naquela manhã. Cerrei-me em punhos fechados, amaldiçoei geral. Nem antes - quando nada havia ainda - nem antes eu suportava pensar em outro com ela que não eu. Sucumbi. Horas depois, no meio da rua, ela gritava coisas que eu não queria mais ouvir. Segurava-me o rosto procurando meus olhos, mas eu já não enxergava nada– fulminavam neles finas lâminas. A noite ia alta e vazia, havia poucas pessoas dispostas a enfrentar os perigos de sair àquelas horas, eu cantarolava pensamentos – quando tá escuro e ninguém te ouve... Percebi que alguém passava por trás de mim a passos largos, esperei milésimos que se afastasse, até que o som dos sapatos dobrasse a esquina. Senti a urgência comendo e se lambendo, achei que aquele era o momento certo para agir. Então, a arma que pesava no bolso da minha jaqueta surrada se encaixou perfeita em minha mão, saiu rapidamente para fora e despejou uma, duas, três balas. Só foi o tempo de me desvencilhar do corpo de Zilá, caído sobre minhas botas, com os olhos abertos, uma noite longa pra uma vida curta – e sumi correndo rumo ao cais do porto. Joguei a arma no Guaíba e sai a passo, devagar, sem remorso. Entre os dentes, lanterna dos afogados.


