Wednesday, March 10, 2010

Casa Velha

Restam somente lembranças. Mais que isso, sentimentos. Os dias eram longos, feitos de rituais que se cumpriam do amanhecer à noite. Os fins de semana, ao contrário, pareciam muito curtos e quando terminavam sempre deixavam em mim uma sensação de tempo roubado – momentos que gostaria de ter prolongado – tantas as coisas que ainda queria ter feito.
Aos domingos, entrávamos no jipe e íamos passar o dia na casa do meu avô, pai de meu pai. Saíamos cedo, por volta das oito horas, percorrendo alguns quilômetros pela estrada de chão que, à medida que avançávamos, estreitava-se cada vez mais, até se tornar quase uma trilha onde o capim crescia abundante. A vegetação rasteira ladeava as beiradas do caminho e, logo atrás dela, as cercas de arame farpado demarcavam a pequena propriedade e impediam que gado, ovelhas e cavalos escapassem. As terras do meu avô iniciavam-se na estrada e desciam, rumo oeste, até as margens do rio Piratini. Atravessávamos a porteira e, em seguida, avistávamos a casa de telhado escuro, caiada de branco, de muitas janelas e circundada por uma calçada estreita. Em frente à morada, a lagoa, as roseiras, os pés de camélia. Do lado direito, os galpões, a mangueira, o aerodínamo, o banheiro do gado. À esquerda, as ervas de chá e a horta. E o gramado verde, circundando tudo. Dentro da casa, na parte da frente, havia a sala principal e três quartos. Aos fundos, dois ou três degraus abaixo, ficava o quarto dos hóspedes, a despensa, uma sala menor, a cozinha e a sala de jantar, e é nesta que o vô Norico costumava repousar nas manhãs de domingo.
Ficava sentado abaixo da janela, na sua cadeira de balanço, feita de madeira crua e couro, coberta por um peleguinho bem tratado e sob medida para o assento. Um grande rádio valvulado, com caixa de madeira envernizada, ficava no lado oposto, apoiado sobre uma prateleira fixada na parede, longe do alcance das crianças. Eu observava vovô ali, com suas bombachas largas e seus chinelos de sola, cabelos grisalhos, enquanto ele tomava chimarrão e escutava as notícias. Seu semblante guardava mistérios, suscitava-me uma espécie de devoção religiosa, um respeito mítico.
Suas palavras eram como ordens, incontestáveis, não havia nelas tom de rancor, mentira, maldade ou deboche. De comportamento calmo e ponderado, era também enérgico nas ações e assaz crítico em suas opiniões. Discutia política, recusava com veemência as opiniões contrárias, comprava revistas e jornais quando ia à cidade e, assim, mantinha-se atualizado sobre o Brasil e o mundo. Reto com os costumes, afável com filhos e netos, solidário e respeitado pelos vizinhos, sabia os nomes até daqueles remotamente conhecidos e considerava como parentes próximos os mais longínquos. Meu avô sabia sorrir com os olhos. Ele contava “causos”, alguns herdados de outras gerações, outros que ele mesmo inventava, fazia pequenas mágicas, criava garnisés por divertimento, encilhava e tosquiava como ninguém.
Muito tempo separa este cenário do que resta como relíquia na minha lembrança. No entanto, embora o calendário distancie cada vez mais, ano a ano, a imagem guardada dos fatos, as cenas não ficaram com um tom amarelado ou desbotado, apenas revelam hoje nuances típicas das páginas de livros infantis.

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