Thursday, March 11, 2010

Encantamento

“[...] Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." (Grande Sertão: Veredas, J. G. Rosa)

A chegada
O castelo encerra sons – um vozerio indistinguível que vem das salas. Durante o dia, o sol penetra através do telhado e vai pousar no chão – as luzes descobrem o tamanho do espaço. Os diversos tons esverdeados e a superfície dos blocos sem polimento revelam a textura da pedra bruta que reveste o piso. As partes dispostas em vários tamanhos formam quadrados que se encaixam e resultam em figuras simétricas, aparentemente iguais, formando fileiras do mesmo desenho. Nove são os blocos que montam cada um dos inúmeros quebra-cabeças, uma sucessão de montagens em que os quadriláteros vão se unindo pelas linhas longitudinais dos rejuntes.
Ao caminhar sobre o pavimento frio, tenho a sensação de uma direção obrigatória a seguir, como no deslocamento das peças de um jogo de xadrez. Cruzar o saguão em diagonal me retém o passo; procuro não pisar nas linhas divisórias, como se o fato de o meu sapato tocar, ao mesmo tempo, dois conjuntos, possa promover uma desordem na estática simetria.Vista do alto das escadarias, noto que a superfície de rocha fria ganha uma aveludada homogeneidade; os desenhos ora parecem peças costuradas de uma colcha de retalhos ora uma planície recortada de verdes campos – sólido chão em que arvoraremos saberes.
Nenhuma de nós teve ímpeto irresistível de entrar nele, nada de cantar senhas ou palavras mágicas, nem de sonhos ou visões. Alguns presságios. Dentro das salas, elas – as bruxas – iam-nos fisgando aos poucos em suas malhas invisíveis, tramando nós, introjetando em nossas mentes pequenas doses de misteriosa poção. Éramos enlaçadas astuciosamente por ardilosa mágica e, artimanha finda, saíamos seduzidas, trôpegas, os olhos esbugalhados, tez abobalhada, o coração em palpitações. O feitiço das sãs palavras estendia raízes e se apoderava lenta e irremediavelmente das nossas almas inocentes.
..............................................................................................................................................................................

A Transmutação
Os dias passavam. Notávamos que brotavam dentro de nós curiosidades, alguma coisa parecida com nascer de um ovo sem casca. Elas, as bruxas, atraiam-nos quase todas as noites para o ritual sagrado, iniciavam premeditada letramadura. Abríamos os livros, as brasas incandescentes na forja, elas giravam o caleidoscópio. Víamos tudo que somente olhos quase fechados podem ver – espreitávamos buracos de fechadura. A ladainha era assombrosa. Invocados, os deuses acordavam, ressoavam em trombetas, muitos deles víamos materializados e circulando entre nós, mortais, suas vísceras e mentes abertas, escancaradas, pulsantes de histórias jamais ouvidas. Benfazejas, elas apresentavam-nos os monstros sagrados, adulavam-nos, seduziam-nos – caminho sem volta – tornávamo-nos suas cúmplices.
A transmutação ocorria lentamente. Apreciávamos erva daninha, inseto, goteira, toda espécie de não-dizer, sentimento fugaz, entrelinhas. Dentro e fora do castelo, já ensaiávamos os rituais de iniciação – bruxas aprendizes que éramos. Fazíamos com mesuras e cerimônias os chamados, os deuses brindavam-nos com regalo, longas horas entoadas em prosa e verso – nós ouvíamos e dançávamos inebriadas. Percebíamo-nos peixes dentro d’água. Muitos nos viam como uma tríade de nefasto gosto. Em que rio tínhamos nos banhado?
..............................................................................................................................................................................

A despedida
Agora, cumprem-se os derradeiros rituais. Seremos, enfim, lançadas no despenhadeiro. Como aves que ensaiam seu primeiro vôo, resta-nos apenas bater as asas. Como quem parte de um porto a outro, dada a travessia, resta-nos somente chegar ao outro lado. Mas que margem incerta é essa em que aportaremos? Nos nossos espíritos embotados ecoam vocábulos ancestrais, somos chamadas por vozes misteriosas, rodamoinhos se movem, tecem as bruxas-mestres as últimas fibras do manto das iniciadas. Então, no púlpito armado em pompa e ostentação, tomaremos o cetro, honraremos o uno mandamento, colaremos o grau conferido àqueles que sucumbem às tentações e deixam-se ungir – óleo sagrado e profano – pelo estranhamento das palavras.
–"O mal está feito" – como profetizara um dia a clarificada maga chamada Clarice.
Em breve deixaremos o castelo com o manto novo sobre os ombros, elas nos empurrarão de leve, o barco se afastando, elas nos acenando, juntos aurora e crepúsculo – dissimularemos saudades. Tão certas as feiticeiras de que nada é seguro, de que quase tudo nos escapará entre as mãos, de que não haverá jamais terra firme. Ah, Sagradas Bruxas! Nau, tempestades, calmaria... por que águas navegaremos? Tornamo-nos irmãs pela comunhão das Letras. Como explicar que ainda sendo as mesmas também somos outras? Sabemos atrás de nós diversas naus ancorando; vemos horizonte em bruma à frente. Seguimos agradecidas: porque altas brilham, suas estrelas serão sempre nossas guias.

No comments:

Post a Comment