Thursday, March 11, 2010

O Acaso

...Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.
(J. G. Rosa)



Muitas vezes, sem que planejemos nada, acontecimentos inusitados nos enchem da mais pura emoção. Costumo dizer que as coisas não planejadas podem nos reservar as melhores surpresas, o arrebatamento de momentos únicos, que permanecem doces, límpidos, na nossa lembrança.
Subíamos, meu marido e eu, pela rota dos vinhedos. Dia ensolarado, paisagem bucólica, apreciávamos os parreirais, as casas próximas à estrada, as imponentes construções dos hotéis e das vinícolas. Vislumbramos, lá no alto, as torres de uma igreja, e para lá nos dirigimos, sem nada combinar. O mapa sinalizava uma cidadezinha de nome Monte Belo; rodamos poucas quadras até estacionarmos em frente à matriz. Curiosamente, naquele momento exato, os sinos repicaram as dez horas. De mãos dadas, sorrimos – aquilo era lindo! –, o som majestoso era para nós um bom presságio, parecia que estávamos sendo bem acolhidos por aquele lugar. Entramos na nave, e o deslumbramento tomou conta: teto e paredes finamente pintados, vitrais coloridos, arte incomum e não imaginada fora das grandes catedrais. Ajoelhamos – eu de olhos bem abertos para apreciar tamanha beleza – e agradecemos aquele momento.
Íamos sair quando me chamaram a atenção as janelas sem vidros do lado direito, cerradas com tábuas; receamos que a fúria de um temporal tivesse passado por ali. De repente, uma amável senhora, da qual não sei o nome, mas cujo semblante alegre lembro bem, surge de uma porta lateral. Perguntamos qual a causa da falta dos vitrais, e ouvimos dela uma explicação clara e precisa, digna de lição a bons profissionais do turismo. Ela nos contou que os vitrais, se quebrados, não poderiam ser repostos, pois eram exclusivos, vindos de não sei onde. Foram então retirados cuidadosamente dos caixilhos para limpeza e manutenção, para depois serem recolocados, cada um no seu lugar, assim como já havia sido feito com os do lado oposto. Olhei, e vi que o colorido dos desenhos bíblicos faiscavam como novos ao sol. A anfitriã casual ainda nos contou que a igreja fora restaurada na década de 60, pelo esforço da comunidade e do padre daquela paróquia na época, ao qual, por sinal, eram atribuídos alguns milagres. Estava ele sepultado ali mesmo, disse, e nos conduziu até o jazigo, na pequena sala ao lado da porta principal, sobre o qual, em meio às flores colhidas nos jardins dos devotos, ardia a luz de muitas velas; sim, disse ainda, ele cuidava dos fiéis, curava enfermos, trabalhava pela comunidade. Antes de nos deixar a sós e ir embora, sem que pudéssemos ao menos agradecer-lhe pela amabilidade e nos despedir, a senhora apontou-nos um caderno sobre a lápide – registro da fé; acrescentei nele também nossas súplicas, pedi para que o sacerdote intercedesse pela compaixão divina.
O sol invadia o ambiente e pousava manso sobre o granito. Pensei em fazer uma prece à alma do bom padre, mas ouvi um som peculiar de vozes em coro. Saímos à porta da sala e podemos ver, próximo ao altar, um grupo de crianças, sob a orientação do atual sacerdote ou de um professor – isso não sabemos –, escutando atentas uma música clássica. As vozes em harmonia perfeita reverberavam na arquitetura peculiar do templo; o altar adornado em flores, as crianças, o som mágico, o colorido vibrante dos vitrais, a beleza dos arabescos e imagens, tudo estava ali, em comunhão, ao alcance de nossos olhos – Deus estava entre nós.
Pensei num instante como o cotidiano, sem nos apresentar algo diferente durante dias, pode também oferecer-nos subitamente, em poucos minutos, uma sucessão de sublimes presentes, delicados como mimos de mãe na infância. Permanecemos parados e mudos por alguns instantes, uma vontade de ficar por mais tempo, porém as minhas lágrimas poderiam se abrir em comporta e perturbar a alegria dos meninos. Meu marido fez o sinal da cruz, eu repeti o gesto, disfarcei os olhos marejados, e saímos dali como se acordássemos de um sonho. Lá fora, olhei mais uma vez para a igreja antes de ir embora, tentando em vão assimilar o que me era transcendente, e ainda agora sinto que não compreendo toda a magnitude daquele acontecimento ímpar.

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