Thursday, March 11, 2010

Pomba

Uma janela fechada ainda é uma janela pergunto eu sento aqui todo dia pra ver se vejo alguma coisa que seja diferente e só vejo as mesmas árvores os telhados as antenas de televisão lá no morro e eu aqui dentro fazendo nada queria sair poder voar pra bem longe mas que besteira ninguém sai desse lugar desse jeito precisaria ter uma varinha mágica e aqui todo mundo é bruxa sem saber feitiço nenhum que ajude em alguma coisa continuamos com as grades muita parede e o teto como uma nuvem pesada em cima das nossas cabeças por falar em cabeça tem umas aqui piores que as moscas ficam zumbindo no meu ouvido me provocando só querem tirar proveito quando tentam me sacanear eu faço que não entendo arrumo uma cara de sonsa aí elas me deixam em paz mas o que eu queria dizer é que aqui dentro é muito rancor com um pouco de amizade só que eu tento guardar mesmo sabendo que não dá pra confiar em ninguém. Tudo que eu penso parece pequeno e uma coisa insignificante me desassossega olhando através da janela as pessoas que passam na rua pensam que nós somos feras numa jaula e passam de carro popular ou importado não importa até a pé mesmo e nem olham nem imaginam que estou aqui em cima espiando entre sutiãs e calcinhas e pensando tudo isso às vezes alguém muito raro acontecer alguém dá uma olhadinha bem pouca e depois desvia os olhos como se levasse choque ninguém quer ver aquilo que incomoda como se a gente fosse o entulho da cidade é muito triste pensar nisso todos acham de última classe a gente aqui encerrada e os parentes gritando lá em baixo na calçada pra saber como estamos se precisamos de alguma coisa cigarro doce um abraço ou trazendo notícia dos nossos filhos em casa se estão bem de saúde e estudando pensam que a gente não tem ninguém não fazem idéia da dureza mas eu sei que as pessoas também fazem isso de disfarçar pra fingir que tudo vai bem na frente de hospital de hospício e da televisão quando aparece a imagem da favela cheia de mulher e criança com fome de tudo isso eu sei porque lá na vila tinha classe média que ia só pra buscar erva e pó e nem se importava com a gente eu via e sabia mas não podia falar nada a janela era outra mas a vida também era uma cadeia de coisa ruim pressionando por todos os lados acho que as pessoas pensam que elas não fazem nada de errado e ficam comprando muamba molhando a mão de político usando droga achando que tudo é muito certo mas o certo mesmo é que eles são gente igual a nós só que com mais dinheiro. Outra janela na minha vida é o olho vivo e sem malícia do meu filho que tem dois aninhos e vive comigo aqui tento não pensar como é triste uma criança dentro deste inferno mas parece que ele nem percebe e brinca e ri quando olho e falo amor da mãe ele se derrete todo parece que mora num palácio de tanta alegria e eu tento dominar o meu sofrimento nem sei como vou explicar quando ele crescer que também teve preso por um crime que só eu cometi talvez nunca me perdoe por ouvir no meio das conversas nas esquinas pelas costas que é filho de uma ex-detenta mas ele vai lembrar dos dias de sombra e vai dizer que eu paguei pelos meus erros como manda a lei já prometi a Deus que não volto mais pra esse lugar devia era prometer a Ele que não vou errar caminho quando sair daqui mas quem faz tudo certo o tempo todo só os olhos do meu amorzinho me dão força e coragem e é através deles que eu vejo uma liberdade muito maior que aquela que parece existir do outro lado da janela quadriculada dessa prisão como num calendário em que aparece sempre a mesma paisagem nua trocando a roupa nas estações do ano passa um mês é outono com folhas amareladas no chão e no outro já é inverno tudo acinzentado e eu vou arrancando uma por uma as folhinhas contando os dias que faltam pra sair daqui tem feito um tempo muito frio pouca roupa pra se cobrir de noite eu abraço o meu nenê e ele fica bem quentinho não sei se posso aguentar até chegar a primavera então fico olhando a chuva cair lá fora e uma pomba veja só vem pousar bem aqui se protegendo do vento e da chuva ela nem sabe que isso aqui é ainda pior pomba burrinha essa tanto lugar bom pra se abrigar bato na vidraça e ela nem me olha fica com a cabeça enterrada nas penas cochilando as vezes se coçando e nem me dá bola igualzinha aos outros todos que estão lá fora. De manhã cedo sempre um alvoroço posso ver carros chegando as mães deixando os filhos e fico achando muito estranho uma escola do lado de um presídio o que será que as professoras falam pras crianças quando elas perguntam por que tanta mulher presa acho que devem responder porque são criminosas e devem ficar apartadas da sociedade sem divertimento longe do conforto da família e fim sem muita explicação porque é melhor não ir fundo no assunto queria saber o que iam responder se uma guriazinha ou guri mais esperto dissesse e os velhinhos no prédio do outro lado do presídio que fizeram pra estarem assim longe de tudo quase esquecidos hein mas esse é um assunto que incomoda muito e só eu mesmo pra ficar pensando mais uma bobagem dessas se os grandes ficam tapando sol com peneira fingindo não enxergar a realidade o problema é deles afinal todos um dia vão ficar velhos isto é se tudo der certo se não morrerem antes de doença acidente ou bala e cada um de qualquer jeito vai remoer os seus pecados assim como eu. Apagaram a luz mandaram fazer silêncio e as outras abafam os cochichos na escuridão só a janela encerrando a claridade que vem da noite lá fora como um quadro branco pendurado numa parede preta e eu olhando pra ele dentro dessa galeria marginal o que eu queria era fazer parte dessa pintura a lua subindo por cima do morro a cidade embaixo eu e meus filhos sossegados em qualquer endereço que não seja esse aqui Lili no que tu tá pensando shhhh em nada já vou deitar só mais um pouco boa companheira se preocupa comigo que eu fico acordada escrevendo rabiscando no meu diário tateando as linhas digo pra ela que virou um vício toda noite sem sono tento passar pro papel um pouco do pensamento senão a cabeça não aguenta tanta confusão não é brincadeira o tempo passando e a gente uma água de poço será viver isso meu Deus não é que eu queira dar uma de anjo não foi fazendo boa coisa que eu vim parar neste lugar mas a cruz é pesada nas costas de qualquer um seja bom ou mau e tem também o meio mau será o mesmo meio bom sei lá nunca tinha pensado nisso mas o que eu dizia era que escrever amansa dá um alívio eu fico parada e a idéia fujona como asa de pomba ultrapassa as grades da janela vai perambulando pra longe uma maneira de ir levando as horas e na mão agora eu sei o lápis é a varinha que vai fazendo mágica com as palavras descarregando um pouco da amargura dos dias que perdi ou que me roubaram no risco das letras como que vou serrando o ferro e recuperando uma certa liberdade pela escrita.

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