Thursday, March 11, 2010

Graça

Mês de abril. O ônibus sacode na estrada esburacada. A manhã de outono ainda conserva as temperaturas escaldantes do verão, e a poeira que levanta da estrada entra pelas janelas abertas, se junta ao cheiro das flores dentro do balde de plástico no banco ao lado, e enche o ar de um cheiro sufocante. Graça olha a paisagem de uma Vila Nova diferente. Quatro anos haviam passado, quase não lembrava mais das noites mal dormidas, das paredes escuras, dos dias desesperados, a vida toda no lixo. Tudo o que via tinha agora um sentido novo, não passava um minuto sequer sem que deixasse de perceber a nova realidade, construída por ela palmo a palmo. Izinha e Henrique tagarelam nos bancos da frente, ambos disputam pacificamente a janela estreita e apontam para a paisagem passageira. Graça aprecia a conversinha de ambos e sente uma alegria transbordante queimar o peito. A vida vem em ondas, ecoava o verso de uma música que ela ouvia no rádio quando adolescente, e agora tinha certeza de que era assim mesmo.
Até a volta, dona Graça. As crianças já a esperam do outro lado da estrada, ela confere o horário do ônibus que os levará de volta para casa, até a volta seu Hermes, o rastro de poeira continua a viagem. Ninguém mais por ali, bem como Graça gostaria que fosse. As cruzes se elevam por cima do muro caiado, ela ouve uma cigarra estridente, o sol inundando tudo.
Qual é a tumba do vô, vó? É do meu pai..., retruca Isinha, devagar e num tom mais baixo que o de costume, as mãozinhas torcendo a barra do vestido, lembrança nenhuma do pai na cabecinha. Hein, vó? Nenhuma resposta. Graça anda passos lentos lembrando o dia em que soube da morte do marido, os tapas que a sobrinha teve que dar no seu rosto. Nem uma semana fazia que Joana tinha falecido, a dor ainda fisgando, e o homem que amava tanto também estava morto, nenhum cuidado, nenhum adeus, nenhuma palavra. Chorou e lamentou madrugadas, incomodava, mandavam que calasse a boca, queriam sossego. Pois sim. Sossego num lugar daqueles. Pesava a vida naquele lugar, ela perdia parte da alma. Hoje, quatro anos depois, não tem mais mágoa de ninguém, nem lágrimas pra derramar, uma saudade aplacada pela vida boa que tem.
É essa daqui, diz Graça com os olhos parados na pedra sem retrato. Primeiro a gente tira as flores velhas, assim, ó. Vai Rico, joga fora do outro lado da cerca. Vamos colocar as rosas assim, depois a gente despeja a água. Izinha, pega a vela na bolsa da mãe e os fósforos. Isso. Tem que botar a mão assim pra acender, senão o vento apaga. Tá, agora com as mãozinhas assim, assim, juntinhos. Pai nosso que estais no céu...o pão nosso de cada dia...não nos deixeis cair em tentação...amém. Agora, assim, o sinal da cruz, isso. Pronto, acabou, podem brincar, mas sem subir nos túmulos.
As crianças se afastam, nem de leve o cenário do cemitério lhes remete à morte. Há divertimento em observar cruzes enferrujadas, adornos religiosos, as flores de plástico. Graça observa de longe a filha mais nova e o neto, parte da família que lhe deu forças para sair do inferno. Jamais pensou que tivesse tanta força o amor. Amava o marido e os filhos todos, os cinco que eram dela e os que adotara por força dos desvios da vida. Para ela, sim, os muros e as grades do cemitério eram símbolos de ausência de vida. Ela lembrava os dias e as noites todas em que sofreu os horrores daquele outro lugar, sentindo frio, medo, arrependimento, somente chão, teto, paredes e muitas grades. A galeria toda era um viveiro de mulheres endurecidas, sedentas, algumas secas de sentimentos, outras, fervilhando rancores. Tô no ódio – escreveu Graça desatinada certa vez, recordando da cilada em que ela própria havia se metido e que a colocara lá. Dera ouvidos às pessoas erradas, perdeu o rumo. Teria entrado em depressão, não a tivessem designado para ajudar a cuidar das crianças na creche recém reformada. Ali, cuidando do pequeno Noel, sentiu que a vida ainda podia ser boa, havia uma família, filhos em casa esperando por ela. Olhando nos olhos de uma criança cremos mais na vida, damos mais valor às coisas simples, ficamos mais humildes, acreditamos mais no futuro, escreveu Graça no seu diário, depois de uma tarde de trabalho com os pequenos. O futuro. Graça se sente vivendo o que via no espelho daqueles olhinhos.
Tou com sede, vó, chamou-a a vida de volta. Ofegantes, bochechas rosadas, bebem a água gelada da garrafa térmica. Na viagem de volta, as crianças sonolentas sentadas junto dela, Izinha aninhada no colo, cabelinho cheirando a suor, Rico escorado nela, ensaiando sono. O pai era bom, mãe? Era, sim, bom que nem o Dudu, agora dorme que ainda falta muito pra chegar. Era bom, tão bom que não pôde me ver no fundo do poço e morreu antes de eu sair de lá. Por muito tempo Graça curtiu uma grande decepção, Cesinho era o grande amor da sua vida, mas havia feito coisas erradas, sobre as quais ela quase não falava com ninguém. Culpava-o também por ter ido parar naquele lugar. Mas esse sentimento foi aplacando depois que ela ganhou a liberdade e, depois de alguns meses, as boas lembranças abafaram completamente o sentimento ruim. Todo ano, em abril, no dia da morte do marido, Graça ia ao cemitério em memória dele, levava flores, acendia uma vela, rezava, prezava o repetido ritual. Era bom voltar pra casa depois.
O pequeno chalé escondido na beira da estrada é o lugar onde foi morar com os filhos, menos o mais velho. Dudu trabalha na Carris, juntou-se, não quis casamento, foi morar com uma moça, longe, mas é dele que ela e as meninas recebem mimos nos fins de semana. Pacotes de biscoito, a galinha do almoço de domingo, algum brinquedinho pros pequenos, abraço apertado na cozinha depois que todos já saíram da mesa. Os outros, todos debaixo da sua saia depois que ela voltou, assim ela quis. Dois meses em liberdade, Marquinho, o segundo filho, saiu da FASE, e ela o prendeu dentro de casa, deu conselho e comida, longe da gentalha com quem andava antes. Pede pra Deus, dizia Graça, que Ele vai te ajudar. Um dia descobriu o guri lendo uns escritos da igreja evangélica. Ela deixou. Foi a culto, quis ser pastor, não tinha jeito, engasgava-se com as palavras. Coisa melhor aconteceu: nunca mais chegou perto de uma boca de fumo, voltou a estudar, arrumou emprego, Graça sentia os dias aliviados.
Lembrava-se de quando, menos de mês livre, ela recebera o voto de confiança do vizinho, dono de uma chácara de pêssegos. Era tempo de colheita, precisavam de mais gente pra dar conta da safra, trabalho pesado desde os primeiros sinais de sol. O perfume das frutas compensava qualquer cansaço, e ela ainda podia levar para casa todos os dias quilo ou dois, as crianças se fartavam. Do que sobrava, Graça fazia fogo a lenha atrás do chalé, preparava doce pra passar no pão. Um dia, levou um vidrinho pra dona do mercadinho provar, a mulher aprovou, e graça recebeu no dia seguinte uma encomenda. Variou receita, aumentou produção, nunca mais parou. Era boa como estar em banheira cheia de água morna a sensação de liberdade, poder trabalhar, filhos na escola, alimentados. Ao sair desse lugar, espero resgatar o amor, a confiança e acima de tudo o respeito de todos, quero reconstruir minha vida, trabalhar, estudar, ser feliz e fazer minha família feliz para que um dia sintam orgulho de mim ao invés de vergonha, desejou Graça no seu diário, nos tempos de grades, fio de esperança. Lá fazia os novelos, tecia aqui a realidade.
Meio dia. Graça pisa no degrau da pequena varanda, Izinha e Rico entram na sala em correria. Uma onda de cheiro bom vem da cozinha, retalhos de riso, tons mais altos da conversa das outras meninas chegam de dentro da casa, o colorido das roupas secando ao sol. Num dia como hoje, Graça, as mãos algemadas para trás, desceu aos empurrões da gaiola, olhou para cima, sol queimando, e viu as janelas do Madre cheias de roupas íntimas penduradas, mãos que acenavam, cabeças ainda desconhecidas, promessa de pesadelo. Um peso imenso caiu sobre ela. Por quê? Se pudesse voltar no tempo... Não, a vida é pra frente, se convenceu meses depois. No dia em que saiu de lá, veio um sentimento estranho, tinha deixado para trás desafetos, mas também criara laços somente possíveis quando se está em condição reles, sem nada, nenhum interesse. Mulheres e crianças confinadas, num fazer por si, ilhadas no tempo e espaço, a indiferença passeando solene do lado de fora. A despeito dos comentários furtivos e dos olhares desviados, a alegria foi chegando devagar, depois de dias em casa, trazida pelo burburinho da criançada. Era preciso recomeçar.
Uma tonteira se abateu sobre Graça de repente, o estômago embrulhou. Seria a fome? Deixou as pernas afrouxarem, sentou no degrau, tirou os chinelos e baixou a cabeça. A terra acariciava os pés descalços. Olhos no chão, Graça admirava as formigas em carreira no meio do capim, indo e voltando, carregando comida, ora pareciam se chocar, ora detinham-se como que conversando, umas com cargas maiores que o próprio corpo, outras vagavam perdidas. Somos como as formigas, entendeu subitamente. Da porta, passos. Vem comer, morena, tá no mundo da lua? Um dia ainda acerto as contas com o Cesinho-do-cemitério que te deixa assim, sussurrou a voz com seu jeito sorrateiro, beijo na nuca, mãos acesas em afago sobre sua barriga. Uma vontade de chorar explode dentro dela, mas Graça ri da conversa mole do seu homem e deixa a vida rolar.

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