Thursday, March 11, 2010

Ciclo Ocre

Certa vez – era eu muito pequena, mas grande o suficiente para hoje poder me lembrar do que vou contar – apareceram no céu uns círculos avermelhados. Era um lindo final de tarde de outono, ou seria de inverno... não sei, os últimos vestígios de sol ainda deixavam uma tênue, quase nenhuma mesmo, claridade azulada no poente. Meu pai chegou da venda esbaforido, batendo nervosamente na porta. Minha mãe abriu, e ele nos chamou para vermos também o indecifrável. Olhávamos extasiados aquilo, o coração aos pulos, o pensamento borbulhante de interrogações. Céu limpo, ar parado, somente os círculos de fogo. Ao mesmo tempo em que nos refazíamos do choque daquela novidade terrível e espetacular, perguntávamos uns aos outros: seriam extraterrestres, invasores cruéis, o fim do mundo? Trariam eles a cura para todas as doenças ou seriam como um maligno tumor que estenderia metástase sobre nós, até liquidar tudo? Conforme substituíamos as teorias mais fracas por outras, no afã de desvendar o mistério, íamos percebendo que também os halos luminosos – cerca de cinco ou seis –, um após o outro, eles também iam esmaecendo, caindo para o tom alaranjado, até por fim desaparecerem definitivamente de nossas vistas.
Deus sabe bem da decepção que sofremos meus irmãos e eu. Depois da possibilidade de um milagre cósmico ter sido despertada em nós por aquele acontecimento incomum, ele nos escapava como lambari entre os dedos, sem nos dar o direito de apreciá-lo ao menos durante aquela noite toda.
Na nossa vidinha simples no campo, vivíamos sempre a cata de algo inusitado – crianças que éramos – tudo dentro dos limites da terra em que habitávamos: cobra com duas cabeças, ovo de duas gemas, redemoinho, ninho de beija-flor, lagartas dormitando nos casulos. Já tínhamos visto, sim, alguns eclipses do sol e da lua e a luz longínqua de satélites que, de vez em quando, vagueavam nas noites daquele mesmo céu. Da perspectiva infantil, porém, nada que houvéssemos presenciado até aquele momento jamais poderia se comparar com aquilo. Não podia, então, um leque enorme de possibilidades aparecer de repente diante dos nossos olhos para sumir em pouco mais de meia hora. E os dias e noites que não mais seriam os mesmos, os relatos de pessoas que teriam visto ou mantido contato com os visitantes estranhos, o planeta aos poucos sendo invadido por criaturas que dominavam o espaço? Se não eram eles, então o que era aquilo? Se não eram eles, bons ou maus, estávamos então sozinhos no universo, como antes? Oh... Esse último pensamento, em especial ele, latejou por muito tempo ainda na minha inocente cabeça, na cama antes do sono, nos passeios solitários, no tédio da escola. Nenhuma explicação.
Os dias se passavam, esperávamos ansiosos anoitecer, os olhos varriam palmo a palmo o céu pintado de estrelas – as mesmas de sempre –, lamentávamos quando estava nublado. Nunca mais aquele esplendor escarlate coroou o ocaso, nem instigou mais a criatividade dos nossos sonhos, nem fez brotar mais em nossa imaginação a possibilidade de o inverossímil acontecer. Era o início de um tempo de existência ocre, que foi amarelando no bamboleio benfazejo dos dias e durou tanto quanto o ressentimento consegue sobreviver dentro de um coração infantil.

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