Sunday, August 9, 2009
Vaso
A anatomia de um vaso é qualquer coisa de útero, receptáculo de coisas vivas. Simples coisas não cabem em vasos, mas coisas-significado, objetos-flores, sentimentos líquidos. A forma do vaso se mostra, por fora, mãos postas em oração, por dentro, o espaço da concha. O vaso sempre aguarda aquilo que será do resto apartado. A fina linha de porcelana, vidro, ferro, barro – a carne – separa a porção do todo, subitamente. Tudo o mais está em volta do vaso, a espera do sentido de uma medida exata, um tanto, ao acaso. Só, o vaso é destaque aos olhos. Somente em vaso a água, a dor, a terra, o sangue. O tempo envasado nas horas, a morte no silêncio dos túmulos. A visão no olho, o dia na clarabóia escura da noite. O viés contido das paixões escondidas, o segredo inviolado, a mulher grávida, o vazio é vaso. Voz, vaso das palavras.Vaso.
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