Sunday, August 9, 2009

Devoção


Olho a praia – sempre cheia de gente e de surpresas. O mar que conheço é tão somente a luxúria das ondas no vai e vem sobre a areia. Alguns metros adiante, ele é outro, um desconhecido que me causa um medo visceral, o mesmo medo que se tem do escuro na infância. Tanto faz que seja uma viagem a um planeta distante qualquer ou um banho inocente no mar: sempre tenho mais medo desse último, de tão perto que estão os seus secretos perigos. O mar é tudo aquilo que não sei... Basta que me atreva a vencer uns primeiros passos em direção às ondas e, num instante, ele exercerá sua força incontrolável sobre mim – inseto em imensa sopeira –, água e sal invadirão meus pulmões e expulsarão deles o ar, sem piedade. Esta é a punição sofrida por termos desaprendido a respirar também dentro dele, assim como fazem as tartarugas, os leões-marinhos, as sereias.
Uma menina entrou no mar. A primeira onda veio, e ela se arrepiou toda, mas pulou de pura alegria. A água puxou-a mais um pouco, e veio outra onda, que a criança soube aproveitar em um mergulho mais ousado, a sensação leve e refrescante de locomover-se dentro de um útero gigante. Ela pulou de novo, e venceu mais uma onda espumante e cheia de energia, impelida pela massa densa de todo o mar. Nada mais existe.
Do alto da guarita, sob um céu azul-fotografia, alerta a bandeira amarela: o mar é para os peixes. Dois pares de olhos também observam o mar lá de cima, suas evoluções e armadilhas e a ingenuidade afoita de todos que se arriscam dentro dele. Outro mar – feito de guardassóis coloridos – se estende para todos os lados na areia escaldante. Como girassóis gigantes, protegem com suas sombras um sem número de lagartos sonolentos e cansados do sol. O vento nordeste inicia timidamente e avisa que o meio-dia está chegando: hora de reunir tralhas e filhos.
Um apito estridente interrompe a rotina de retirada. Algumas pessoas se levantam e correm em direção à água. A visão dos salva-vidas em frenética corrida ao mar remete todos à necessidade imediata de isentar-se do perigo. Homens, mulheres e crianças se procuram, na ânsia de não pertencer àquele momento em suspenso. O mar – ele sabe aproveitar o descuido das almas pueris. Os homens-de-músculos avançam, na areia os olhares ávidos se estendem como raios para um único ponto: a cabeça de cabelos pretos que mal aparece sobre as ondas. Uma mão solidária se aproxima, eleva-se fora d’água e lança uma bóia cor-de-laranja; outras duas mãozinhas no ar tentam agarrá-la. Ele, o mar – refúgio de incontáveis seres, de formas e cores inimagináveis – brinca de empurrar e puxar, não lhe interessam os méritos fugazes dos homens que nele se arriscam para dele salvar uma única vida. Os braços fortes suspendem a menina, que junta, em meio ao pânico e a vaga, restos de esperança e força para se agarrar à bóia. O mar é vencido em uma rota diagonal, braçada a braçada, até a praia. Na areia, muitas mãos batem palmas – agradecidas por não precisar, elas próprias, de lançarem-se em tamanha e desigual disputa.
A menina, livre do perigo que sequer imaginara – o de rolar pela ladeira vertiginosa do chão do mar, até onde aguardam bocarras vorazes, monstros, grota e escuridão – a menina somente chora e pede pela mãe. Uma multidão de curiosos – como quem recém assistisse a um espetáculo sombrio – aplaude a façanha. Graças! Os santos – disseram uns – escutaram as nossas orações e agiram pelas forças desses homens de olhos atentos, de fortes braços e pernas, trabalhadores de um mar sem remorsos. Deus emprestou-lhes a coragem! – falou a mãe – rosto vermelho, a emoção à flor dos olhos, a filha aconchegada ao colo. Também Mãe Iemanjá – Nossa Senhora dos Navegantes – também ela sorri um riso indecifrável em seu altar de redoma. O mar – este pacientemente espera.

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