Tuesday, August 4, 2009

Alegria-do-jardim


- Seu Delegado, me chame de João das Flores. Faço o favor de contar o acontecido, que não posso fazer silêncio de uma coisa que, sem querer, eu mesmo e mais ninguém viu. Nem queria lembrar de nada, mas a consciência de um pai de família não dorme com um silêncio atordoando a cabeça. Foi na sexta-feira, eu estava voltando do serviço, que o senhor não sabe que eu trabalho na santa casa de noite, sou dos serviços gerais, faço a faxina do jardim central e cuido das roseiras, uma maravilha olhar tudo limpinho, as rosas abrindo. Pois eu tinha acabado de sair, era cinco e meia eu acho, ia faceiro que era o fim da semana e no outro dia eu estava de folga, atravessei a duque e virei na praça, uma friagem que o senhor não faz idéia, assim meio lusco-fusco, aí foi que eu vi a moça conversando. Que era com alguém eu sabia, mas não via a outra pessoa, e eles falavam baixinho. O que me chamou a atenção foi que a moça estava nua, branca como jasmim, e de botas, numa hora daquelas, com aquele frio. Pensei, é meretriz, que mulher direita não fazia isso, e aproveitei pra me esconder na marquise de um edifício e espiar mais um pouco. Ninguém na rua, então um homem muito alto saiu por detrás do caramanchão de buganvílias e foi pra cima da guria, foi aí que eu vi que era briga, ou assalto, ela chorava baixinho, e só falava betão não, betão não. Então ele deu uma facada aqui, bem na barriga, lá dela, que eu quase desmaiei de susto. Fiquei que nem respirava direito, imagina o senhor, ver a mulher estrebuchando, caída no canteiro de alegria-do-jardim, o senhor sabe que é época da flor abrir, tudo vermelhinho e amassado pelo corpo, o homem vindo correndo. Ele passou aqui, bem na frente do meu nariz, eu escondido, ele nem me viu, mas eu vi ele, sim senhor. Tinha quase dois metros de altura, um sujeito bem vestido, paletó, sapato, calça de tergal, roupa fina, não era que nem a gente, não. E cheiroso, o senhor sabe aquele cheiro de xópin quando a gente entra na porta, era esse mesmo, mas o que ele tinha de perfumado tinha de azarado. Pois na corrida caiu do bolso do fujão esse extrato de banco, que eu mando pro senhor junto com essa carta. Ele passou, eu esperei um tantinho, catei o papel do chão, enfiei no bolso e corri até a esquina pra ver se enxergava o cara. Que!, nem rasto, mas o papel eu peguei, e disse aqui em casa que ia servir pra alguma coisa, a gente sabe que qualquer coisa serve nessas horas, não é verdade? Eu tava passando ali na hora certa, pena que a moça...

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