Pedro, meu irmão, tenho pensado muito em ti. Disseste pra esquecer aquela mulher, lembra, mas antes eu nunca a tivesse visto. Dizem que quem tem um olho só é meio cego, mas também é meio vidente. Eu sabia que aquela história nunca ia dar em nada, que ela era muita coisa pra mim, mas quem pode com uma tentação dessas? Desde aquele dia do acidente com o ônibus que ela nunca mais apareceu. Ela vinha sempre, com um jeito de andar sempre igual, passava aqui pela banca, olhos e dentes como jóias. Depois, eu começava a viver o primeiro minuto das vinte e quatro horas que faltavam pra ela voltar. Hoje é só tristeza, eu sem saber o que aconteceu, não querendo acreditar que era ela ali, toda cheia de sangue, os braços caídos, cabeça sem rosto. Além do mais, o corpo que eu vi naquele dia não me dizia nada, entende, era como se a morta fosse mesmo uma estranha. Mano, o meu olho nunca me enganou, mas achei que fosse bobagem da minha cabeça; agora vejo: só podia ser ela naquele asfalto de sangue, senão, qual a razão do nada dentro de mim? Outro dia atravessei a rua correndo e alcancei uma senhora por trás. Ela levou um susto quando a toquei no ombro, pedi desculpas, disse que ela se parecia com uma amiga minha, fiquei parado na calçada, uma vontade de desaparecer. A Zu nunca desconfiou de nada, acha que ando tonto assim por causa do cansaço, o dia todo no frio, pouco dinheiro. A banca vende cada vez menos, tenho pensado muito em mudar, ir pro interior, quem sabe. Só continuo aqui porque tenho o pressentimento de que uma tarde dessas ela ainda vai aparecer no fim da quadra, vai parar aqui na frente, dizer boa tarde, quanto tempo, uma fraqueza nas pernas, ela indo embora, o sol de novo, o colorido das coisas. Penso só coisa ruim acontecendo, o olho-sem-olho me dói, a vida sem vontade. Sabe, Pedro, te confesso, se não fosse tu, tinha medo até de fazer besteira.
Sunday, August 9, 2009
Carta de João para Pedro
Pedro, meu irmão, tenho pensado muito em ti. Disseste pra esquecer aquela mulher, lembra, mas antes eu nunca a tivesse visto. Dizem que quem tem um olho só é meio cego, mas também é meio vidente. Eu sabia que aquela história nunca ia dar em nada, que ela era muita coisa pra mim, mas quem pode com uma tentação dessas? Desde aquele dia do acidente com o ônibus que ela nunca mais apareceu. Ela vinha sempre, com um jeito de andar sempre igual, passava aqui pela banca, olhos e dentes como jóias. Depois, eu começava a viver o primeiro minuto das vinte e quatro horas que faltavam pra ela voltar. Hoje é só tristeza, eu sem saber o que aconteceu, não querendo acreditar que era ela ali, toda cheia de sangue, os braços caídos, cabeça sem rosto. Além do mais, o corpo que eu vi naquele dia não me dizia nada, entende, era como se a morta fosse mesmo uma estranha. Mano, o meu olho nunca me enganou, mas achei que fosse bobagem da minha cabeça; agora vejo: só podia ser ela naquele asfalto de sangue, senão, qual a razão do nada dentro de mim? Outro dia atravessei a rua correndo e alcancei uma senhora por trás. Ela levou um susto quando a toquei no ombro, pedi desculpas, disse que ela se parecia com uma amiga minha, fiquei parado na calçada, uma vontade de desaparecer. A Zu nunca desconfiou de nada, acha que ando tonto assim por causa do cansaço, o dia todo no frio, pouco dinheiro. A banca vende cada vez menos, tenho pensado muito em mudar, ir pro interior, quem sabe. Só continuo aqui porque tenho o pressentimento de que uma tarde dessas ela ainda vai aparecer no fim da quadra, vai parar aqui na frente, dizer boa tarde, quanto tempo, uma fraqueza nas pernas, ela indo embora, o sol de novo, o colorido das coisas. Penso só coisa ruim acontecendo, o olho-sem-olho me dói, a vida sem vontade. Sabe, Pedro, te confesso, se não fosse tu, tinha medo até de fazer besteira.
Subscribe to:
Post Comments (Atom)

No comments:
Post a Comment