Sunday, August 9, 2009

Um olhar sobre Porto Alegre


De onde eu moro posso saber muito de Porto Alegre. A transformação desta cidade acontece aos meus olhos como um grande e infindo espetáculo. Daqui contemplo em perspectiva o mundo, na porção que me é concedida ver, sentir e ouvir. Posso ver prédios crescerem, incrustados na densa massa de concreto do centro, vejo o Menino Deus, a Azenha, Moinhos, a Glória! Posso ver detalhes em relevos e tons, os contornos da cidade, lá em baixo, ao alcance das mãos. Como estranhas ervas daninhas, vejo brotarem silenciosas, da noite para o dia, as antenas em terrenos baldios, no topo das construções. Vejo o rio Guaíba sendo poluído e, ainda assim, refletindo no espelho da sua água os tons púrpura dos fins de tarde. Vejo sol e lua pelos céus das estações, percorrendo em arco o trajeto cíclico entre verões e invernos, passeando em idas e vindas no horizonte. Prevejo o tempo em transparências e escuridões surgidas do rumo sudeste, os temporais se aproximando, as nuvens de frio, os presságios das secas, a calmaria do tempo bom. Vejo, nos silêncios das manhãs de domingo, as fumaças que se elevam das churrasqueiras. Vejo os incêndios, ouço os barulhos das sirenes, o tumulto das carreatas, vejo os fogos do Ano Novo; silenciosas, a chaminé do Gasômetro, a cúpula da Catedral; as ruidosas evoluções das aeronaves no Sete de Setembro, a revoada dos papagaios nas manhãs ensolaradas. Daqui, amigos, vejo as bandeiras trocarem de cor, balões subirem, discursos se inflamarem, os arcos-íris se formarem depois da chuva. Vejo as copas das árvores tingirem-se com os tons rosados e lilases das paineiras e jacarandás e a chuva colorida das flores banharem o chão de Porto Alegre. Ouço as comemorações dos colorados e tricolores, os sinos da Medianeira, as matracas dos afiadores de facas. Já vi, no céu de Porto Alegre, o passeio do dirigível e do Halley; vi, em noites estreladas, a sombra da terra toda se derramar sobre a lua, e também o sol desaparecer em pleno dia. De onde moro, findo o dia, eu posso ver as luzes de uma cidade que não dorme – braseiro queimando sob as cinzas de um imenso fogo de chão. Daqui – Porto Alegre de ruas e becos – eu te vejo, feliz cidade.

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